domingo, 27 de abril de 2014

Bipolaridade sob o olhar de uma enfermeira

  “Assistência de Enfermagem a pacientes com desordem bipolar e sentimentos da estudante de enfermagem: estudo de caso”, é o texto da postagem de hoje. O desenrolar deste tem a ver com o que o próprio título já diz. A estudante precisa estagiar, e durante esse processo, ela estuda o caso de uma senhora que sofre de perturbação bipolar.
   Primeiramente, a autora, Luciana Martins, faz uma descrição do vem a ser a doença. A perturbação bipolar é uma psicose caracterizada essencialmente por um distúrbio no humor da pessoa. De uma forma geral, a doença é chamada de Psicose Maníaco-Depressiva (PMD), mas se subdivide em: maníaca, depressiva ou mista. Essa subdivisão vai depender do quadro de sintomas em que o indivíduo se encontra no momento. No caso do paciente que possui o distúrbio misto, ele pode passar diretamente de uma fase a outra ou, após o término de uma, permanecer com o humor estável durante um período antes de ir para a outra.
- A fase maníaca se manifesta quando a pessoa encontra-se em um estado de euforia e tem um humor muito elevado; além de agitação e alguns sintomas como insônia, aumento da libido e sentimentos de grandiosidade. Pode apresentar quadros de irritabilidade também. E como descreve Martins, “em casos mais graves, este
tipo de paciente torna-se tipicamente psicótico com fugas de ideias, fala desorganizada, agitação psicomotora, delírios de grandeza e mesmo alucinações.”
- A fase depressiva acontece quando o paciente sofre um período de melancolia (já tratada nas antigas postagens, com ênfase em Freud...lembra?) e falta de interesse na vida. Sintomas como desânimo, falta de interesse e prazer são comuns nessa fase. O paciente também alimenta pensamentos ruins e tem opinião pessimista sobre si próprio. “O deprimido (...) tem um caráter de baixa autoestima, sente-se muito inseguro, possui dificuldades para tomar decisões, sente-se culpado, pensa em suicídio, tem perda de
apetite e, como consequência emagrece, diminui a libido e apresenta insônia.”
Obs.: O paciente recebe em cada fase, uma medicação diferente e específica para tratar os sintomas.

      Após essa descrição sobre como é a doença, a autora foca na relação paciente-enfermeira. Ela diz que essa relação é de extrema importância para o tratamento e que a atendente precisa usar não só dos seus conhecimentos da área de saúde, mas também das suas próprias características individuais para lidar com situações mais complicadas.
   No caso dos pacientes de PMD, os enfermeiros vão enfrentar vários problemas, no que se refere ao comportamento deles, que varia muito de acordo com a fase. Cabe a equipe de assistência, amparar de todas as formas o paciente e dar à ele o que ele necessita. Não só em termos de medicamento, mas também o apoio emocional, físico e de cuidados em geral. E, além disso, ela destaca o quão é importante que o profissional seja paciente, pois muitas vezes ele é levado ao extremo durante o tratamento e o convívio com quem sofre da doença. Segundo as palavras de Martins: “ Durante a fase maníaca, existe a dificuldade de evitar o medo, a rejeição e a irritação que o paciente provoca nos membros da equipe de enfermagem, dada a sua agitação e agressividade. Na fase depressiva, sentimentos de irritação e impotência, dificuldades de demonstrar aceitação e paciência frente ao comportamento do paciente, são gerados nos membros da equipe, dado o desânimo e a falta de cooperação do paciente.” E que mesmo sendo muito difícil, deve-se buscar uma postura não crítica, em que a enfermeira tente compreender a situação, saiba ouvir (essa é uma postura bastante parecida com a dos voluntários do CVV) e estar pronta para oferecer ajuda e amparo sempre que ele precisar. Dessa forma, é responsabilidade do profissional zelar pela própria segurança do paciente, uma vez que este fica vulnerável na fase depressiva, por apresentar comportamentos que podem levar até mesmo o suicídio. E não só na fase depressiva, pois há períodos em que ele fica agressivo na fase maníaca. Todas essas coisas podem não parecer tão significantes, mas fazem parte do processo e são conhecidas como medidas terapêuticas.
   A paciente que Luciana ficou responsável durante o estágio, foi a mesma que ela utilizou como exemplo para relatar como foi a experiência de assistência a enfermagem. O diagnóstico da paciente de 61 anos era de Psicose Maníaco-Depressiva crônica, de ciclagem rápida (não possui períodos de estabilidade no humor). Ela já havia sido internada no hospital psiquiátrico duas vezes anteriormente e, na terceira, foi internada durante a fase maníaca. A estagiária pôde presenciar as duas fases da doença. A primeira foi a depressiva, na qual R. (modo como a autora refere-se a paciente) manifestava os sintomas que foram descritos mais acima. Martins diz que foi complicado no início, pois ela tinha dificuldade em se comunicar com R. ou de fazer com que ela se sentisse incentivada a fazer coisas como participar dos grupos de apoio/se socializar, se hidratar ou comer. Então, para obter sucesso na assistência, visando a melhora da paciente, ela utilizou algumas medidas terapêuticas:
- Silêncio terapêutico;
- Apoio;
- Verbalização de aceitação e de interesse;
- Clarificação (quando o assunto não era compreensível);
- Repetia às últimas palavras ditas pela paciente (para retomar o assunto e quebrar o silêncio).
   Basicamente, essas medidas tem como base o incentivo positivo, sempre buscando estimular e encorajar o paciente durante o processo de tratamento.
   Já na fase maníaca, as dificuldades encontradas foram menores, pois de acordo com a autora, “(...)não tinha aquela tristeza contagiante,aquela falta de estímulos e as entrevistas fluíam bem, com vários assuntos.” Apesar disso, elas passaram uma semana sem se ver e, foi durante esse tempo, que houve a troca de fases. Isso desestimulou Luciana de início, que já tinha feito um plano de assistência voltada para a fase depressiva. Nessa fase, as medidas terapêuticas utilizadas foram:
- Clarificação;
- Ouvir reflexivamente (ao mesmo tempo em que ela escutava a paciente, também a questionada, com o objetivo de clarear o pensamento para ambas, além de ser uma forma de obter mais informações);
- Imposição de limites;
- Dizer ‘não’ (em situações mais complicadas, como querer fugir do hospital).
   A conclusão do trabalho é, na verdade, o que já tinha sido apresentado antes, relacionado as dificuldades que a enfermeira teve de enfrentar. Mas isso faz parte do tratamento e, quanto profissional, a assistente já sabe o que esperar. Por isso é importante ter essa preparação anterior (teórica e emocional), pois só assim ela pode encontrar meios para lidar com situação. Uma coisa que Martins abordou no texto, mas que também foi tratado em todos os outros lidos, é a questão de tratar o paciente como um ser particular e único, tendo o cuidado de entendê-lo diante das suas particularidades e do seu contexto. Nesse caso em específico, pode-se entender melhor esse ponto durante o processo do tratamento e os meios que a enfermeira usa para alcançar a melhora do paciente.             Por exemplo, é certo que existem remédios que são receitados para todas as pessoas que sofrem de PMD (forma generalizada). Mas só os remédios não são suficientes para o tratamento e precisa-se que a pessoa tenha um acompanhamento. É aqui que entra a importância da relação entre paciente e enfermeira. E o modo como a enfermeira trata cada um, vai diferir, pois apesar de existir certas condutas que são mais adequadas para esse tipo de tratamento, cada pessoa é única e possui características distintas umas das outras. Nisso, consigo ver muita semelhança com o texto sobre o CVV e a teoria de Rogers, que defende a ideia de um método de tratamento centrado na pessoa.
   Além do que já foi dito, uma outra questão que é pouco abordada, mas que eu acho importante destacar, é o fato do preconceito com quem sofre da doença. A autora comenta em uma parte sobre não ter tido a oportunidade de conhecer a família de R., mas que se tivesse sido diferente, queria falar com os parentes sobre acolhê-la e dar atenção à ela, além de não utilizar termos como “maluca” ou não expressar sentimentos de desprezo, indiferença ou demonstrar qualquer tipo de preconceito, pois isso tudo pode afetá-la de uma forma negativa. E, infelizmente, sabe-se que esse tipo de comportamento das pessoas de fato existe. Compreendo que às vezes seja difícil aceitar ou lidar com esse tipo de situação, mas ao mesmo tempo, a pessoa não está doente porque quer. Então, ela merece ser olhada com bons olhos. No caso desta doença em específico, o termo ‘bipolaridade’ acabou se popularizando e as pessoas o usam sem muitas vezes conhecer o real sentido da palavra. Às vezes por uma simples mudança no comportamento, as pessoas dizem: tal pessoa é bipolar...uma hora está de bem com todo mundo e depois já está com raiva. E mal sabem elas que essa questão vai além disso e precisa ser encarada com mais seriedade. 

   E, para descontrair, o vídeo da música "Hot N' Cold", da cantora Katy Perry:

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Prevenção do Suicídio - parte 2

   “Prevenção do Suicídio: Um relato da Capacitação dos Voluntários do Centro de Valorização da Vida (CVV) no Município de Porto Alegre”, foi dividido em duas partes. A segunda começa a partir do capítulo 2 da tese especialização de Patrícia Venturela. É nessa parte que encontra-se a parte mais importante do desenvolvimento do texto, pois é nela que a autora vai explicar mais a fundo como funciona O CVV.
   Como conceitua a autora, o Centro de Valorização da Vida “é uma sociedade civil sem fins lucrativos, de caráter filantrópico”, existente no Brasil desde 1962, em São Paulo. É um programa de prevenção do suicídio que funciona 24 horas por dia, incluindo domingos e feriados. A forma de contato pode ser por telefone ou pessoalmente (das 8h às 18h). Também existem outras formas de contato, como SMS, e-mail ou chat. O atendimento é gratuito e tem como público todas as pessoas que desejam conversar (claro que existem limites, pois existe um objetivo central). Seja sobre alguma dificuldade, alegria, crises... afinal, o programa busca a prevenção e isso significa que não deve-se esperar o indivíduo se suicidar para tomar alguma providência e sim, prevenir que isso aconteça. A inspiração dessa sociedade surgiu nos Samaritanos, que atuavam desde os anos 50, na Inglaterra. Lá, a iniciativa surgiu de um Reverendo de uma igreja Anglicana, que após realizar um velório de uma menina de 14 anos que se suicidou por não saber o que era a menarca, decidiu tomar alguma providência para que as pessoas que precisassem ser “ouvidas”, pudessem e tivessem como fazê-lo.
   Após dar essas informações acerca da história e do funcionamento, Venturela descreve como se dá o processo de capacitação dos voluntários do CVV. Assim como ela expôs de forma bem clara (e às vezes difícil de compreender, por serem situações delicadas nas quais os voluntários se encontram), o professor convidou uma pessoa que vive isso na prática para nos dar uma palestra sobre o programa. E isso acrescentou bastante a leitura, uma vez que através de alguns relatos dele, foi ficando mais fácil entender e enxergar o tamanho da importância do CVV para as pessoas que o procuram. Da mesma forma que está no texto, o palestrante (prefiro não citar nome) também enfatizou alguns pontos cruciais para que o atendimento seja efetivo e que são de responsabilidade do atendente fazê-lo. 
  •  A pessoa que está ajudando, precisa ser congruente, transparente; Ou seja, ela precisa acreditar no que o outro diz, de fato. Ela não pode ser superficial no atendimento. Quem procura ajuda precisa se convencer no que ela está dizendo é sincero. Assim, se ganha confiança. 
  • O voluntário não deve ter como objetivo fazer uma análise do caso (impondo seu ponto de vista, por exemplo) e sim, entender o ponto de vista da pessoa.
  • Entendendo o ponto de vista, fica mais fácil aceitar e compreender. Isso é necessário para que haja uma empatia entre os dois. 
   Há, ainda, coisas que o ajudante NÃO deve fazer, pois a forma de atendimento baseia-se na ACP (Abordagem Centrada na Pessoa), que busca criar condições de mudanças através de recursos que o indivíduo encontre por si só. São eles: 
  •  Comparar
  • Aconselhar
  • Julgar
  • Indagar
  • Interpretar
   Não sei se é claro, mas esses pontos já foram tratados na parte 1 do texto. Elas são as Condições Facilitadoras do Crescimento, que são meios pelos quais os voluntários vão buscar resgatar a Tendência Atualizante do indivíduo (que encontra-se quase inexistente nas pessoas que pensam em se suicidar). Essa relação de ajuda tem como base os princípios do olhar Humanista, de Carl Rogers. E é nessa segunda parte do texto que a teoria dele é aplicada. O CVV é um belo de exemplo de uma teoria que é praticada (muito bem, por sinal). O senhor palestrante nos disse algo sobre ela que eu achei muito interessante: a psicologia humanista nos ajuda a relacionar com as pessoas. De fato, isso é verdade. Não precisa ser psicólogo ou voluntário do CVV pra ter essa sacada. Ela é muito aplicável a nossa realidade... nos deparamos o tempo todo com problemas, situações complicadas, crises. Apesar de serem importantes no processo de construção do indivíduo, há certos momentos em que estamos mais vulneráveis. Ou, como diz Freud, nos encontramos em estados melancólicos. Também acho normal, pois ninguém é de ferro e consegue estar 100% o tempo todo; e, ao mesmo tempo, creio que até mesmo esse estado de melancolia possa servir de aprendizado ou como forma de superação dos problemas. Mas claro que existe um certo limite pra isso, pois se extrapola, deixa de ser algo que possa se tornar positivo na frente e torne-se o que os especialistas caracterizam como preocupante. Então, pequenas coisas como um ombro amigo ou não se recusar a escutar, já fazem grande diferença. É a tal da expressão que dizemos quando precisamos ser ouvidos: preciso desabafar. Não custa nada nos ajudarmos mais, nos dispormos a ouvir mais... São coisas que parecem insignificantes, mas que podem ter (do ponto de vista do outro) muita importância. Se ficarmos mais atentos, podemos impedir que as emoções destrutivas tomem conta do próximo.
   Para finalizar, uma citação do Rogers que resume exatamente do que essas pessoas necessitam e a forma como funciona o programa: “Acolher o outro com respeito, aceitação incondicional e compreensão, ajudando-o a resolver seus problemas com seus próprios recursos.” 



                    

  Contato para o posto de CVV em Brasília: 






segunda-feira, 14 de abril de 2014

Prevenção do Suicídio

   “Prevenção do Suicídio: Um relato da Capacitação dos Voluntários do Centro de Valorização da Vida (CVV) no Município de Porto Alegre”, diferentemente dos textos lidos até agora, é uma monografia do curso de Especialização Comunitária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que tem como autora Patrícia D’Avila Venturela. O professor decidiu dividi-lo em duas partes e hoje vou escrever sobre a primeira, apenas. Assim como os temas anteriores, esse também está direcionado a mente e as emoções destrutivas. Esses dois fatores já são, por si só, delicados. Se acrescentarmos o fato de que o suicídio é visto pela sociedade como um tabu, a fragilidade quanto a essa questão torna-se ainda maior.
   Venturela começa trazendo algumas abordagens acerca do suicídio:
1)     Olhar sociológico: Enfoque na teoria de Émile Durkheim. Durkheim, como sociológico, queria demonstrar a conexão existente entre o indivíduo e a sociedade, e estudar o suicídio foi um meio de comprová-la. A definição dele é a seguinte: “todo caso de morte que resulte direta ou indiretamente de um ato positivo ou negativo, praticado pela própria vítima e que ela sabia que produziria este resultado”. Sua teoria dizia que esse ato deveria ser entendido como consequência de algo que acontece na esfera social e não na individual. Além disso, ele classificou três tipos de suicídio:
·        Egoísta: onde o indivíduo não está muito inserido no grupo social e, como diz Patrícia Venturela, “pensam essencialmente neles”. Um exemplo? Quando o suicida justifica o ato por causa de um término de relacionamento.
·        Altruísta: Ocorre o oposto do anterior, pois o indivíduo está bastante inserido no contexto social. Normalmente, seus desejos deixam de ser individuais e passam a ser desejos coletivos, no sentido de que deve-se satisfazê-los em prol de algo (ideologia, crença). Um exemplo seriam os homens-bomba.
·        Anônimo: Está relacionando com o conceito de ‘anomia’, que tem a ver com fraca regulação social ou então um estado de transformação/mudança social. Esse cenário deixa o indivíduo mais fragilizado e propenso a cometer o suicídio, além de culpar essas razões externas à ele, para justificar o ato. A autora utiliza os suicídios que ocorreram no Brasil durante a ditadura militar como exemplo.
2)     Olhar Psicanalítico: Freud percebeu que existia uma relação entre as causas do suicídio e a melancolia, que pode estar relacionado com a dor da perda (seja de uma pessoa, de algo abstrato, de um objeto). A diferença encontra-se quando a pessoa se inclui nessa perda também e se priva do contato com as coisas que lhes são exteriores. Digo diferença porque a melancolia pode ser um estado ou uma fase. Por exemplo, por mais que a perda de alguém muito querido nos entristeça, depois de um tempo, retomamos a vida normal. E Freud verificou que isso não acontecia com esses sujeitos que não conseguiam superar a dor, pois é nesse estado que aparecem três sintomas que vão contribuir para o agravamento da situação: perda do objeto, ambivalência e a total regressão da libido ao ego. Assim, o indivíduo busca meios de cessar essa dor. Seja por meio de autoflagelação ou a própria morte.
3)     Olhar Humanista: Rogers defende a ideia de que todo o ser humano tem uma tendência a se desenvolver através de impulsos construtivos. A partir disso, ele cria a ACP (Abordagem Centrada na Pessoa), que diz: “estando o indivíduo livre de ameaças, escolhe direções construtivas para seu desenvolvimento e realizações de seus potenciais”, que no caso daqueles que pensam em se suicidar, esse ‘impulso construtivo’ é inexistente. A ACP é constituída de alguns fundamentos importantes e dentre eles está o conceito chamado de Tendência Atualizante. Ela é uma fase na qual o indivíduo que tem pensamentos suicidas encontra-se; ela caracteriza-se pelo fato de que a pessoa não enxerga em si potencialidades e nem a capacidade de viver. Ainda falando sobre a Tendência Atualizante, algumas características como a autorrealização e autodeterminação seriam fundamentais para o desenvolvimento e o processo construtivo da pessoa. Rogers diz que elas são responsáveis pela ‘conservação’ da existência. Seria através delas que o sujeito se define como pessoa e é capaz de obter as condições indispensáveis para conseguir se relacionar com o meio externo.
   Dessa forma, a autora dá um enfoque teoria de Rogers, que defende a ideia de que o meio externo à ele vai ser crucial para o seu desenvolvimento natural, uma vez que ele influencia bastante da Tendência Atualizante e que, a depender de como ocorreu ao longo da vida, pode ser um fator que vai provocar emoções destrutivas, que levam ao suicídio. Com isso, também é possível concluir que nenhum indivíduo é igual ao outro e é preciso levar em conta suas próprias características, seu próprio contexto de vida. E, sendo assim, cada um possui uma ‘percepção’ sobre os fatos; ou seja, o modo de reação e a maneira como cada pessoa recebe uma informação, uma experiência, vai ser diferenciado. Por isso, a ‘percepção de si’ e o ‘autoconceito’ que são estruturados durante o desenvolvimento como pessoa, são tão relevantes para o autor. No caso da pessoa que possui um pensamento suicida, ela encontra-se em um estado de incapacidade e quando se depara com algo que não se encaixa na percepção que ela tem de si, surgem sentimentos destrutivos (angústia, insegurança, medo...) que propiciam a ele uma situação de instabilidade e vulnerabilidade. Mas apesar disso tudo, para Rogers, existe uma solução para normalizar a Tendência Atualizante: Relação de Ajuda da ACP, que consiste de três fatores. São eles: Compreensão Empática, Consideração Positiva Incondicional e a Congruência. Basicamente, essa relação de ajuda funda-se na relação entre o individuo e o facilitador (voluntário que irá ajudá-lo), que vai tentar, por meio de vários meios, prevenir o suicídio. Mas é importante ressaltar que esses meios utilizados pelo voluntário, não tem o intuito de apontar o que é certo e errado, ou o que ele deve deixar de fazer ou o que tem que fazer; e sim fazê-lo refletir e por si só, encontrando assim, uma solução para a situação.
   Por fim, a primeira parte termina falando um pouco sobre o CVV, Centro de Valorização da Vida. Esse centro tem como objetivo a prevenção do suicídio e apesar de existir desde a década de 60, é muito pouco conhecido (lembrando o que a colega disse em sala, a divulgação deveria ser maior, pois a população sabe muito pouco ou nem sabe sobre a sua existência). Ele funciona em todo o mundo e o atendimento é feito por voluntários. Mas não vou me alongar sobre o tema, uma vez que na segunda parte o foco é totalmente voltado a ele.
   Além desse resumo, acho importante destacar algumas informações que a autora trouxe no início do texto, como o crescimento da taxa de suicídios no mundo. Segundo a Organização Mundial de Saúde, eles crescem a cada ano. Aqui no Brasil, o Rio Grande do Sul é o estado que possui o número mais elevado. Apesar de acharmos que o suicídio deve ser prevenido pelos profissionais da saúde, essa é, na verdade, uma responsabilidade social (até porque, segundo Venturela, grande parte das pessoas que cometeram suicídio, nunca foram até um profissional de saúde mental). O diagnóstico é complicado, no sentido de que não existe uma causa ou um formato em que todos os indivíduos que pensam em cometer tal ato, possam se enquadrar. É diferente de um diagnóstico de uma doença como câncer, por exemplo. É por isso que os especialistas pedem que nos atentemos aos mínimos detalhes... pois o que pode parecer solucionável para mim, pode não ser para o outro. Aqui vejo uma semelhança com a Antropologia novamente: a importância de se colocar no lugar do outro. E é mais fácil compreender a proposta de Rogers também, pois ele vê o individuo como único, sendo fundamental compreendê-lo em seus próprios termos. Talvez seja isso o que falte. Esclarecer isso para a população, porque as pessoas ainda olham com maus olhos essa questão do suicídio. Assim como várias outras questões, falta entender melhor do que se trata. E se não entende, como se trata? É dever do Estado dar ao cidadão qualidade de vida, e a prevenção do suicídio encaixa-se nesse ponto. Além de ser de sua competência também, promover e divulgar as formas de amparo existentes. 
 - Para quem quiser saber mais sobre o CVV, segue o link do site: http://www.cvv.org.br/
 - Para descontrair (e refletir), uma música da banda britânica Coldplay: Lost. (Letra original e tradução: http://www.vagalume.com.br/coldplay/lost-traducao.html


“Existem nas recordações de todo homem coisas que ele só revela aos amigos. Há outras que não revela mesmo aos amigos, mas apenas a si próprio, e assim mesmo em segredo. Mas também há, finalmente, coisas que o homem tem medo de desvendar até a si próprio...”
- Dostoiévski