“Prevenção do Suicídio: Um relato da Capacitação dos Voluntários do
Centro de Valorização da Vida (CVV) no Município de Porto Alegre”,
diferentemente dos textos lidos até agora, é uma monografia do curso de
Especialização Comunitária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que
tem como autora Patrícia D’Avila Venturela. O professor decidiu dividi-lo em
duas partes e hoje vou escrever sobre a primeira, apenas. Assim como os temas
anteriores, esse também está direcionado a mente e as emoções destrutivas. Esses
dois fatores já são, por si só, delicados. Se acrescentarmos o fato de que o
suicídio é visto pela sociedade como um tabu, a fragilidade quanto a essa
questão torna-se ainda maior.
Venturela começa trazendo algumas abordagens acerca do suicídio:
1) Olhar
sociológico: Enfoque na
teoria de Émile Durkheim. Durkheim, como sociológico, queria demonstrar a
conexão existente entre o indivíduo e a sociedade, e estudar o suicídio foi um
meio de comprová-la. A definição dele é a seguinte: “todo caso de morte que resulte direta ou indiretamente de um ato
positivo ou negativo, praticado pela própria vítima e que ela sabia que
produziria este resultado”. Sua teoria dizia que esse ato deveria ser
entendido como consequência de algo que acontece na esfera social e não na
individual. Além disso, ele classificou três tipos de suicídio:
·
Egoísta: onde
o indivíduo não está muito inserido no grupo social e, como diz Patrícia
Venturela, “pensam essencialmente neles”. Um exemplo? Quando o suicida
justifica o ato por causa de um término de relacionamento.
·
Altruísta:
Ocorre o oposto do anterior, pois o indivíduo está bastante inserido no
contexto social. Normalmente, seus desejos deixam de ser individuais e passam a
ser desejos coletivos, no sentido de que deve-se satisfazê-los em prol de algo
(ideologia, crença). Um exemplo seriam os homens-bomba.
·
Anônimo: Está
relacionando com o conceito de ‘anomia’, que tem a ver com fraca regulação
social ou então um estado de transformação/mudança social. Esse cenário deixa o
indivíduo mais fragilizado e propenso a cometer o suicídio, além de culpar
essas razões externas à ele, para justificar o ato. A autora utiliza os
suicídios que ocorreram no Brasil durante a ditadura militar como exemplo.
2) Olhar
Psicanalítico: Freud
percebeu que existia uma relação entre as causas do suicídio e a melancolia,
que pode estar relacionado com a dor da perda (seja de uma pessoa, de algo
abstrato, de um objeto). A diferença encontra-se quando a pessoa se inclui
nessa perda também e se priva do contato com as coisas que lhes são exteriores.
Digo diferença porque a melancolia pode ser um estado ou uma fase. Por exemplo,
por mais que a perda de alguém muito querido nos entristeça, depois de um
tempo, retomamos a vida normal. E Freud verificou que isso não acontecia com
esses sujeitos que não conseguiam superar a dor, pois é nesse estado que
aparecem três sintomas que vão contribuir para o agravamento da situação: perda
do objeto, ambivalência e a total regressão da libido ao ego. Assim, o
indivíduo busca meios de cessar essa dor. Seja por meio de autoflagelação ou a
própria morte.
3) Olhar
Humanista: Rogers defende a ideia
de que todo o ser humano tem uma tendência a se desenvolver através de impulsos
construtivos. A partir disso, ele cria a ACP (Abordagem Centrada na Pessoa),
que diz: “estando o indivíduo livre de ameaças, escolhe direções construtivas
para seu desenvolvimento e realizações de seus potenciais”, que no caso
daqueles que pensam em se suicidar, esse ‘impulso construtivo’ é inexistente. A
ACP é constituída de alguns fundamentos importantes e dentre eles está o conceito
chamado de Tendência Atualizante. Ela é uma fase na qual o indivíduo que tem
pensamentos suicidas encontra-se; ela caracteriza-se pelo fato de que a pessoa
não enxerga em si potencialidades e nem a capacidade de viver. Ainda falando
sobre a Tendência Atualizante, algumas características como a autorrealização e
autodeterminação seriam fundamentais para o desenvolvimento e o processo
construtivo da pessoa. Rogers diz que elas são responsáveis pela ‘conservação’
da existência. Seria através delas que o sujeito se define como pessoa e é
capaz de obter as condições indispensáveis para conseguir se relacionar com o
meio externo.
Dessa forma, a autora dá um enfoque teoria
de Rogers, que defende a ideia de que o meio externo à ele vai ser crucial para
o seu desenvolvimento natural, uma vez que ele influencia bastante da Tendência
Atualizante e que, a depender de como ocorreu ao longo da vida, pode ser um
fator que vai provocar emoções destrutivas, que levam ao suicídio. Com isso,
também é possível concluir que nenhum indivíduo é igual ao outro e é preciso
levar em conta suas próprias características, seu próprio contexto de vida. E,
sendo assim, cada um possui uma ‘percepção’ sobre os fatos; ou seja, o modo de
reação e a maneira como cada pessoa recebe uma informação, uma experiência, vai
ser diferenciado. Por isso, a ‘percepção de si’ e o ‘autoconceito’ que são
estruturados durante o desenvolvimento como pessoa, são tão relevantes para o
autor. No caso da pessoa que possui um pensamento suicida, ela encontra-se em
um estado de incapacidade e quando se depara com algo que não se encaixa na
percepção que ela tem de si, surgem sentimentos destrutivos (angústia,
insegurança, medo...) que propiciam a ele uma situação de instabilidade e
vulnerabilidade. Mas apesar disso tudo, para Rogers, existe uma solução para
normalizar a Tendência Atualizante: Relação de Ajuda da ACP, que consiste de
três fatores. São eles: Compreensão Empática, Consideração Positiva
Incondicional e a Congruência. Basicamente, essa relação de ajuda funda-se na
relação entre o individuo e o facilitador (voluntário que irá ajudá-lo), que
vai tentar, por meio de vários meios, prevenir o suicídio. Mas é importante
ressaltar que esses meios utilizados pelo voluntário, não tem o intuito de
apontar o que é certo e errado, ou o que ele deve deixar de fazer ou o que tem
que fazer; e sim fazê-lo refletir e por si só, encontrando assim, uma solução
para a situação.
Por fim, a primeira parte termina falando um
pouco sobre o CVV, Centro de Valorização da Vida. Esse centro tem como objetivo
a prevenção do suicídio e apesar de existir desde a década de 60, é muito pouco
conhecido (lembrando o que a colega disse em sala, a divulgação deveria ser
maior, pois a população sabe muito pouco ou nem sabe sobre a sua existência).
Ele funciona em todo o mundo e o atendimento é feito por voluntários. Mas não
vou me alongar sobre o tema, uma vez que na segunda parte o foco é totalmente
voltado a ele.
Além desse resumo, acho importante destacar
algumas informações que a autora trouxe no início do texto, como o crescimento
da taxa de suicídios no mundo. Segundo a Organização Mundial de Saúde, eles
crescem a cada ano. Aqui no Brasil, o Rio Grande do Sul é o estado que possui o
número mais elevado. Apesar de acharmos que o suicídio deve ser prevenido pelos
profissionais da saúde, essa é, na verdade, uma responsabilidade social (até
porque, segundo Venturela, grande parte das pessoas que cometeram suicídio,
nunca foram até um profissional de saúde mental). O diagnóstico é complicado,
no sentido de que não existe uma causa ou um formato em que todos os indivíduos
que pensam em cometer tal ato, possam se enquadrar. É diferente de um diagnóstico
de uma doença como câncer, por exemplo. É por isso que os especialistas pedem
que nos atentemos aos mínimos detalhes... pois o que pode parecer solucionável
para mim, pode não ser para o outro. Aqui vejo uma semelhança com a
Antropologia novamente: a importância de se colocar no lugar do outro. E é mais
fácil compreender a proposta de Rogers também, pois ele vê o individuo como
único, sendo fundamental compreendê-lo em seus próprios termos. Talvez seja
isso o que falte. Esclarecer isso para a população, porque as pessoas ainda
olham com maus olhos essa questão do suicídio. Assim como várias outras
questões, falta entender melhor do que se trata. E se não entende, como se
trata? É dever do Estado dar ao cidadão qualidade de vida, e a prevenção do suicídio
encaixa-se nesse ponto. Além de ser de sua competência também, promover e
divulgar as formas de amparo existentes.
- Para quem
quiser saber mais sobre o CVV, segue o link do site: http://www.cvv.org.br/
- Para
descontrair (e refletir), uma música da banda britânica Coldplay: Lost. (Letra original e tradução: http://www.vagalume.com.br/coldplay/lost-traducao.html)
“Existem nas recordações de todo homem coisas que
ele só revela aos amigos. Há outras que não revela mesmo aos amigos, mas apenas
a si próprio, e assim mesmo em segredo. Mas também há, finalmente, coisas que o
homem tem medo de desvendar até a si próprio...”
-
Dostoiévski
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