“Medicina dos afetos – Correspondência entre
Descartes e a Princesa Elizabeth da Boêmia” é o título do 2º texto. O tema, de
alguma forma, se assemelha ao da postagem anterior, pois também fala sobre o
corpo e a mente. Porém, a visão de Descartes é outra e difere daquela que é
pregada pelos monges (mente e corpo interligados). A compreensão deste texto
foi mais difícil do que o anterior. Mesmo tendo sido escrito em forma de
cartas, as questões propostas nelas não se fizeram tão claras pra mim. Até o
momento em que houve a discussão em sala e o professor disse para não nos
preocuparmos se por acaso não tivéssemos compreendido 100% ou se ficamos
confusos durante a leitura (Uffa!).
As cartas se iniciam a partir de um desejo
da princesa Elizabeth em saber o que é a alma do homem. A partir disso, as
correspondências entre ela e Descartes se desenrolam com base nessa pergunta. Descartes
sente-se lisonjeado e honrado por ter sido escolhido para tentar esclarecer essa
dúvida. Ele começa a explicação dizendo que há duas coisas na natureza da alma
que se pode saber: pensamento e a interação entre mente e corpo. A partir disso, seu pensamento
distinguia-se em mente, corpo e a interação entre ambos. Para explicar o corpo,
ele utilizava a metafísica, pois assim como a máquina, o corpo é feito de
matéria e pode ser explicado através de leis da física (por isso ele cria o que
hoje conhecemos como teoria do reflexo). Já a mente, não é feita de matéria,
mas possui uma capacidade de pensamento que a permite captar as informações do
que lhe é externo e é essa capacidade que nos difere dos outros animais (em
certa medida). E sabendo dessa capacidade da mente, ela vai influenciar o
corpo, do mesmo modo que será influenciada. Por isso ele diz que “estando unida ao corpo, ela pode agir e
padecer com ele”. De fato, em um certo momento da troca de cartas, especificamente onde a princesa se encontra
doente, ele diz a ela que os maiores remédios são os da alma, pois eles tem uma
força muito grande sobre o corpo. Mas
diferentemente do que pensavam, ele acreditava que essa interação só poderia
ocorrer em um ponto exato existente no cérebro. Era no cérebro que se
encontravam os nossos pensamentos e a nossa imaginação, que segundo Descartes,
era o ponto de maior significância da mente.
E mais uma vez, isso era motivo de estranhamento para o pensamento da
época (nos dias atuais também), pois em geral, as pessoas davam/dão mais valor
ao que são chamadas “ideias adventícias”, que são adquiridas através das
experiências e dos sentidos. Dessa forma, o “cientista” defendia que a alma era
pensante e que não pertencia ao corpo.
Resumindo, o que ele quis dizer era que a
alma e o corpo eram coisas distintas, mas que apesar disso, havia um ponto de
encontro entre eles. Mas em meio a toda essa explicação, Elizabeth não consegue
compreender como a alma pode ser algo separado do corpo e ao mesmo tempo, ter
uma interação com ele. Mesmo sem sua dúvida ter sido esclarecida, ao final das
cartas Elizabeth agradece a atenção do amigo e diz que elas foram um “antídoto
para sua melancolia”. O fato é que muitos anos se passaram desde que as cartas
foram escritas (1643-1645) e a pergunta da princesa ainda permanece atual. E é
certo que Descartes tinha um pensamento bem moderno para sua época, por isso
suas teorias soavam tão estranhas e de difícil aceitação. E não é porque foi
escrita há muito tempo que precisa ser considerada obsoleta ou sem fundamentos.
Muito pelo contrário, pois só o fato de teorizar sobre uma questão tão complexa
já é algo plausível. Porém, por mais avançada que seja a tecnologia atualmente,
ainda não se sabe ao certo o que é a alma humana. Existem várias teorias,
especulações, suposições... Há aquelas que pendem para a ciência, outras para a
religião. Mas essa é uma daquelas questões que envolvem o mistério da vida e
que talvez nunca sejam respondidas. A tradução da palavra no latim, animum, significa “o que anima”. E se paráramos
pra pensar, é mais ou menos assim que as pessoas a descrevem. Pra maioria das
pessoas (pelo menos do ocidente), grande parte dessa explicação tem um fundo
religioso. Também são atrelados a ela vários atributos, como imortalidade ou
até mesmo a existência de uma alma gêmea. Ou ainda, ser um meio para se
conectar com os que já se foram. Tudo isso mostra que, apesar de ser uma coisa inexplicável,
as pessoas encontram formas de suprir essa inquietação (assim como tudo o que
não conseguimos desvendar) e viver de acordo sua crença.
“Todo o animal tem uma
alma à medida de si. Só o homem a tem infinitamente maior. E o seu drama, desde
sempre, é o de querer preenchê-la.”
- Vergílio Ferreira, escritor português

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