sexta-feira, 13 de junho de 2014

Patologia do tédio

        O semestre está acabando e a postagem de número 13 já é a penúltima. Tem como tema a manifestação do tédio nos indivíduos em contexto de isolamento. O artigo a ser analisado foi escrito por Woodburn Heron na década de 70, no livro “Psicobiologia: as bases biológicas do comportamento”. O título do texto é “A patologia do tédio”.


        Em 1951, um psicólogo chamado Hebb, juntamente com alguns colaboradores – um deles é o autor deste artigo – conseguiu financiamento para realizar uma pesquisa que tinha como objetivo analisar o comportamento de pessoas quando expostas a ambientes totalmente monótonos por períodos prolongados. Os pesquisadores tiraram dos voluntários, intencionalmente, tudo aquilo que poderia estimular os sentidos. O experimento consistia em deixar o indivíduo em um cubículo iluminado 24 horas por dia, que possuía ar condicionado e uma cama confortável. Eles poderiam sair apenas para fazer as refeições e irem ao banheiro. Além disso, as modificações nas atividades cerebrais foram registradas antes, durante e após a pesquisa, por meio de eletroencefalogramas. A duração do experimento era indeterminada, só teria fim quando o voluntário solicitasse sua saída. Todos participantes eram homens, estudantes e que recebiam 20 dólares por dia. Foram feitos testes variados, durante e após o período de isolamento, que tinham o intuito de analisar o quanto suas capacidades sensoriais, mentais e comportamentais tinham sido afetadas. Na maioria dos resultados, os resultados sofreram alteração e notou-se uma piora crescente, conforme passavam os dias.
        A explicação dessa mudança segundo os pesquisadores dizia que o desempenho dos voluntários tinha sido comprometido pelo fato de estarem em ambientes monótonos, tediosos. Várias foram as alterações. Em um dos testes, eles analisaram a atitude do indivíduo com relação aos fenômenos sobrenaturais, antes e depois da experiência. Durante a pesquisa, eles ouviram uma palestra sobre o assunto e foi verificado, que, após ouvirem-na, muitos tinham mudado de opinião a respeito do assunto e tinham dificuldade de argumentar sobre, além de passarem a ter medo de ver fantasmas. Ademais, mudanças comportamentais foram percebidas, como agitação, irritação e distração. Outros sentiam dificuldades de encontrar o caminho para o banheiro e fazer atividades simples, como responder perguntas ou manter um pensamento. Essas eram tarefas difíceis de serem cumpridas. Segundo Heron, o isolamento e a não estimulação, propiciavam uma mudança gradual no conteúdo mental dos sujeitos. Apesar disso tudo, o resultado mais surpreendente do estudo, inicialmente não tinha despertado muito interesse nos pesquisadores, mas depois, tornou-se o mais interessante: eram as alucinações. A princípio, os fenômenos visuais eram mais simples, ficando mais complexos com o passar dos dias. Passavam de formas simples, como figuras geométricas para cenas integradas, como uma “(...) fila de esquilos, com sacos nos ombros, marchando resolutamente pelo campo visual. Mas a principal questão é que as alucinações passaram a influenciar demasiadamente nas vidas dos sujeitos, chegando ao ponto de interferir no sono e de influenciarem na percepção das coisas e do ambiente, após o experimento. Alguns estudantes também relataram que a alucinação não era apenas visual, mas também auditiva e que chegava a afetar o tato, pois sentiam sensações na pele.
        Os resultados do texto, segundo Heron, são semelhantes aos resultados de estudos feitos no cérebro. Ambos mostraram que, os estímulos sensoriais são de extrema importância para manter as atividades e funcionamentos normais do cérebro. O que não acontece quando o indivíduo é exposto a atividades com um grande número de repetições ou quando fica isolado. Agora fica mais fácil entender o quão importante é estimular as atividades cerebrais, por meio de várias alternativas. Uma bastante conhecida, que sempre é recomendada por profissionais da saúde, principalmente para idosos, é de fazer alguma atividade como palavras cruzadas, crochê ou apenas praticar algo que estimule e incite o raciocínio, a atenção ou lógica, para incentivar não só a autoestima, como o funcionamento normal do cérebro. E dessa forma, prevenir doenças, como a Alzheimer. Acredito também, que o isolamento deixa as pessoas mais vulneráveis às emoções destrutivas, que tanto foi mencionada nos textos e nas aulas, e que é, de fato, motivo de dano na vida de muitas pessoas. Creio que um afastamento de vez em quando é necessário, ainda mais se levarmos em conta o estilo de vida a qual estamos expostos hoje em dia. Mas esse afastamento é algo momentâneo, apenas com o intuito de se fazer acalmar, exercitar a paciência para tentar tornar a vida mais leve. E, no caso do isolamento, o efeito é contrário, pois a pessoa vai desenvolver características e comportamentos negativos, como consequência da vida solitária. As relações, a convivência e a experiência são coisas necessárias para o desenvolvimento e crescimento de um indivíduo. 

“A variedade não é o tempero da vida; É sua própria essência.” (Christopher Burney)

Um filme bem famoso, estrelado por Tom Hanks e estreado em 2001, Cast Away ou Náufrago em português, narra a história de um empregado da FedEx que sofre um acidente aéreo e para numa ilha desabitada no meio do Pacífico Sul. Retrata bem o contexto do isolamento. 

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Teoria da Dissonância

        O texto a ser tratado hoje foi retirado do livro “Teoria da Dissonância Cognitiva”, escrito por Leon Festinger, um psicólogo nova-iorquino, na década de 70. Como já dito no título, o livro fala sobre a teoria da dissonância.
        Pois bem, o que seria dissonância? Segundo Festinger, “é a existência de relações discordantes entre cognições, é um fator motivante per ser.” São dois elementos (cognições) que quando relacionados, são contraditórios e destoantes. Para o psicólogo, o termo cognição tem um sentindo amplo, abrangendo elementos desde qualquer tipo de conhecimento (como opiniões ou convicções) até tipos de comportamento. Isso faz com que a dissonância passe a ser cognitiva. A dissonância cognitiva é caracterizada por aquilo que antecede a ação e refere-se à realidade (física, social ou psicológica). Para entender melhor, pode-se substituir o termo dissonância por ‘incoerência’, pois há uma diferenciação entre aquilo que o indivíduo pensa ser o certo e aquilo que ele faz. Do mesmo modo, existe o oposto, que é conhecido como consonância ou coerência, se quisermos usar um termo equivalente. E diferentemente do que parece, esse “fenômeno” é algo muito comum na vida das pessoas e pode ser expressado e vivenciado em diferentes contextos e situações.  
        Os seres humanos estão sempre buscando o equilíbrio como uma forma de conforto, e a dissonância é uma forma de desequilíbrio que vai influenciar na psique e que aparece como uma incoerência. Isso chama-se desconforto psicológico. Para amenizar essa incoerência, os indivíduos procuram meios de se ajustarem e conviver com elas, tentando racionalizá-las ou explicá-las. Essas são atitudes de reduzir a consonância, evitá-la ou eliminá-la. Em muitas partes do texto, o autor compara a dissonância com a fome, pois quando ela aparece, é preciso saciá-la. Da mesma forma opera a dissonância, pois quando ela faz-se presente, a pessoa sente necessidade de procurar meios que acabem com ela. Assim como a fome, quanto maior é, a quantidade de alimento precisa ser grande, e no caso da dissonância, a intensidade das ações, que vão reduzi-la ou eliminá-la. Um exemplo seria o de uma pessoa fumante: apesar de saber que o ato é nocivo a saúde, ela continua fazendo. Essa é uma atitude que caracteriza a dissonância: a contradição existente entre o saber e o fazer. Para tentar diminuir a culpa ou fazer com que o ato de fumar pareça menos errado, ela procura desculpas como: existem doenças que matam mais do o cigarro (isso seria uma redução da dissonância). E a forma de eliminá-la seria parar de fumar. Essa atitude passaria a ser consoante com o conhecimento que a pessoa tem sobre o ato de fumar (fazer mal para sua saúde). Uma outra forma de se lidar com a dissonância, é a adição de um terceiro elemento, que tem o papel de “reconciliar” os outros dois.


        Segundo Frienger, “(...) esse método de redução ou eliminação da dissonância é uma ocorrência muito frequente. Nosso comportamento e sentimentos são frequentemente modificados de acordo com novas informações.” E de fato, pode-se verificar isso na realidade, uma vez que vivemos em sociedade e nos relacionamos a todo tempo, trocando conhecimentos, opiniões... Tudo isso faz parte do amadurecimento e desenvolvimento do ser humano.  O experimento de Stanley Milgram sobre obediência, que foi tratado na postagem anterior, também pode nos servir de exemplo, pois encaixa-se com o trecho do texto que foi citado acima. Durante o experimento, os voluntários agem de uma forma diferente da que agiriam naturalmente, pois são influenciados pelo contexto e pela situação. Os termos contexto e situação podem ser equiparados a “novas informações”. Também encontramos dissonância no experimento, uma vez que os voluntários não acham certo continuar com os choques, mas o fazem, por confiarem no que diz o cientista. Além do que já foi dito, também é importante ressaltar que existem diferentes níveis de dissonância, desde momentâneos até “quase inevitáveis”. Festinger denomina isso de magnitude. Ela varia de acordo com a importância dos elementos cognitivos: se eles tem grande importância, então a magnitude será maior e vice versa. A magnitude também pode ser entendida como um grau de incoerência que existe entre os elementos.
        O fato é que nem sempre a dissonância pode ser reduzida ou evitada, pois ela pode fugir do controle da pessoa e se fazer presente em um nível inconsciente. E assim como o autor conclui o capítulo, digo que as implicações da dissonância não podem ser limitadas, por estarem presentes em várias ações do cotidiano e tornar difícil a generalização e o modo como elas vão se manifestar.

Este link é de um vídeo sobre um experimento de Dissonância Cognitiva: https://www.youtube.com/watch?v=Wvx-gW4vUSc

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Stanley Milgram e seu experimento sobre a obediência

        A postagem dessa semana vem de um livro escrito por uma psicóloga e jornalista, Lauren Slater. O texto a ser tratado (“Obscura – Stanley Milgram e a obediência à autoridade”) é, na verdade, o segundo capítulo de seu livro “Mente e Cérebro”. Diferentemente das outras leituras, essa foi bem prazerosa, pois a forma como a autora aborda as questões, faz com que o leitor se interesse bastante, se sentindo incentivado e instigado pela forma como o tema é narrado. Ela vai descrevendo as situações e os contextos, nos dando a sensação de que estamos presentes no momento.
        O principal assunto do texto é a obediência do ser humano. Com isso, ela usa um experimento feito por Stanley Milgram e desenvolve seu texto a partir dessa descrição. Milgram foi um professor-assistente de psicologia na Universidade de Yale, Estados Unidos. Vivendo em um cenário histórico pós Holocausto, ele quis entender como se dava a obediência das pessoas, frente às autoridades. Além disso, por ser psicólogo social, queria compreender também em que medida a situação influenciava nesses casos, porque ele achava que quando um sujeito era submetido a um contexto convincente, este poderia agir de forma a abandonar seus valores e sua moral, como forma de obediência. Sendo assim, teve a ideia de criar uma experiência que tinha como objetivo comprovar essa sua teoria. Como descreve a autora, Stanley Milgram criou uma “falsa e convincente” máquina de choque. O experimento necessitava de duas pessoas: uma levaria os choques, como castigo por não acertar a sequência de palavras dita pelo outro voluntário; a outra pessoa apertaria os botões (figura 1) que ativariam os choques (de 45 até 450 voltagens), na medida em que o sujeito fosse errando. O fato é que existiam dois atores envolvidos naquela ocasião. A pessoa que supostamente levaria o choque e um cientista, que estaria conduzindo a pesquisa. Não havia choque de verdade, nem cientista. Eram oferecidos quatro dólares para aqueles que concordassem em participar, alegando que o intuito do experimento era “o interesse em aprender os efeitos da punição sobre o aprendizado”. Essa pesquisa foi feita com várias pessoas de diversos países, na década de 60, sendo financiada pela Fundação Nacional da Ciência. De fato, é uma coisa meio assustadora, pois além de se tratar de castigo físico, os voluntários foram de certo modo, enganados. Isso fez com que Milgram recebesse severas críticas, uma vez que a atitude de não revelar a verdadeira intenção do experimento era vista como antiética.
        O que ele desejava saber, era a porcentagem de pessoas que iriam obedecer aos comandos do suposto cientista e quantos iriam desistir. Milgram questionou os profissionais da área de psicologia a respeito da opinião deles sobre qual seria o limite das pessoas, até em que momento elas continuariam dando o choque. Todos disseram que ninguém passaria da voltagem de 150. Todos erraram. 65% dos voluntários foram até o fim. E apenas, 35% desistiram. É importante dizer, que o cientista colocava os aparelhos na pessoa que seria punida na frente da que iria punir, além de testar a máquina de choques no candidato que apertaria os botões. O ator ia “reagindo” aos choques, conforme a voltagem ia aumentando... com gritos, frases de dor e de pedidos para que os choques parassem. Mas ainda sim, 65% seguiram em frente. A autoridade daquela situação era o cientista ou, apenas, um ator vestido com um jaleco, que fazia uma interpretação convincente de seu papel.  As pessoas continuaram porque esse ator, os incentivava todo o tempo, dizendo: os choques não vão fazer nenhum mal, você deve continuar. Ao escutar sobre ou ler o experimento, não ficamos muito convencidos, por parecer que a pessoa não seria ingênua ao ponto de se fazer influenciar desse modo, sendo capaz de continuar com a tortura, mesmo ouvindo gritos do outro lado máquina. Mas infelizmente, a maioria teve essa atitude. E nessa situação, o papel do “homem de jaleco” é muito importante aqui, pois a pessoa sente-se encorajada a cometer tal ato pelo fato “dele saber o que está dizendo”. Muitas delas perguntaram se ele se responsabilizava pelo que poderia vir a acontecer com a outra pessoa, com medo de ter de assumir o que tinham feito. Essa figura autoritária está presente em vários momentos da nossa vida. E estamos acostumados a obedecê-la. Já está naturalizado na sociedade que nós devemos aceitar e não questionar. Muitas vezes, isso faz com que as autoridades se aproveitem e utilizem de meios para se promover, como foi o caso de Hitler, com o Nazismo e de muitos governantes hoje em dia, principalmente no Brasil. Não estou incentivando a desobediência, nem dizendo que ninguém questiona. Apenas provocando uma reflexão sobre muitas situações que vivenciamos.
        Achei a pesquisa de Stanley Milgram bastante interessante. E mais ainda, seu resultado, pois assim como os psicólogos, não acreditei que mais da metade dos candidatos chegariam ao ponto de tirar a vida de uma pessoa, com um choque. Muitas pessoas da turma, durante a discussão do texto na aula, disseram que haviam se colocado no lugar das pessoas que apertavam os botões. Também me coloquei nessa posição e confesso que fiquei com receio do que faria, uma vez que o contexto te leva a fazer coisas que você negaria, sendo Stanley. E analisando esse lado, Milgram foi cruel com os voluntários, pois não se interessou em como ficaria o emocional deles, após descobrirem o que haviam feito. Apesar de ser uma encenação, o estresse pelo qual eles passaram e os sentimentos que sentiram com certeza não foram fictícios. Mas apesar disso, Milgram provou sua teoria, de que a situação é sim, uma variável importante para se avaliar um comportamento de uma pessoa. Muitos dos voluntários, ao saberem a verdade, tentavam usar de características e atributos pessoais positivos para “se sentir melhor’: sou vegetariano, estudante, pai de família, etc. O lado bom é que a pesquisa nos faz perceber o quão podemos ser influenciáveis, e como nos sentimos pressionados por fazer a coisa certa (mesmo sem saber se de fato é). Como diz Slater no texto, assim como Stanley Milgram, os psicólogos sociais acreditam que a psique é menos importante do que o contexto. Tenho minhas dúvidas, pois acredito que ambos exercem uma grande influência sobre comportamento humano.

Figura 1 




“Usualmente não é o caráter de uma pessoa que determina como ela age, mas sim a situação na qual ela se encontra.”

- Stanley Milgram