sexta-feira, 6 de junho de 2014

Stanley Milgram e seu experimento sobre a obediência

        A postagem dessa semana vem de um livro escrito por uma psicóloga e jornalista, Lauren Slater. O texto a ser tratado (“Obscura – Stanley Milgram e a obediência à autoridade”) é, na verdade, o segundo capítulo de seu livro “Mente e Cérebro”. Diferentemente das outras leituras, essa foi bem prazerosa, pois a forma como a autora aborda as questões, faz com que o leitor se interesse bastante, se sentindo incentivado e instigado pela forma como o tema é narrado. Ela vai descrevendo as situações e os contextos, nos dando a sensação de que estamos presentes no momento.
        O principal assunto do texto é a obediência do ser humano. Com isso, ela usa um experimento feito por Stanley Milgram e desenvolve seu texto a partir dessa descrição. Milgram foi um professor-assistente de psicologia na Universidade de Yale, Estados Unidos. Vivendo em um cenário histórico pós Holocausto, ele quis entender como se dava a obediência das pessoas, frente às autoridades. Além disso, por ser psicólogo social, queria compreender também em que medida a situação influenciava nesses casos, porque ele achava que quando um sujeito era submetido a um contexto convincente, este poderia agir de forma a abandonar seus valores e sua moral, como forma de obediência. Sendo assim, teve a ideia de criar uma experiência que tinha como objetivo comprovar essa sua teoria. Como descreve a autora, Stanley Milgram criou uma “falsa e convincente” máquina de choque. O experimento necessitava de duas pessoas: uma levaria os choques, como castigo por não acertar a sequência de palavras dita pelo outro voluntário; a outra pessoa apertaria os botões (figura 1) que ativariam os choques (de 45 até 450 voltagens), na medida em que o sujeito fosse errando. O fato é que existiam dois atores envolvidos naquela ocasião. A pessoa que supostamente levaria o choque e um cientista, que estaria conduzindo a pesquisa. Não havia choque de verdade, nem cientista. Eram oferecidos quatro dólares para aqueles que concordassem em participar, alegando que o intuito do experimento era “o interesse em aprender os efeitos da punição sobre o aprendizado”. Essa pesquisa foi feita com várias pessoas de diversos países, na década de 60, sendo financiada pela Fundação Nacional da Ciência. De fato, é uma coisa meio assustadora, pois além de se tratar de castigo físico, os voluntários foram de certo modo, enganados. Isso fez com que Milgram recebesse severas críticas, uma vez que a atitude de não revelar a verdadeira intenção do experimento era vista como antiética.
        O que ele desejava saber, era a porcentagem de pessoas que iriam obedecer aos comandos do suposto cientista e quantos iriam desistir. Milgram questionou os profissionais da área de psicologia a respeito da opinião deles sobre qual seria o limite das pessoas, até em que momento elas continuariam dando o choque. Todos disseram que ninguém passaria da voltagem de 150. Todos erraram. 65% dos voluntários foram até o fim. E apenas, 35% desistiram. É importante dizer, que o cientista colocava os aparelhos na pessoa que seria punida na frente da que iria punir, além de testar a máquina de choques no candidato que apertaria os botões. O ator ia “reagindo” aos choques, conforme a voltagem ia aumentando... com gritos, frases de dor e de pedidos para que os choques parassem. Mas ainda sim, 65% seguiram em frente. A autoridade daquela situação era o cientista ou, apenas, um ator vestido com um jaleco, que fazia uma interpretação convincente de seu papel.  As pessoas continuaram porque esse ator, os incentivava todo o tempo, dizendo: os choques não vão fazer nenhum mal, você deve continuar. Ao escutar sobre ou ler o experimento, não ficamos muito convencidos, por parecer que a pessoa não seria ingênua ao ponto de se fazer influenciar desse modo, sendo capaz de continuar com a tortura, mesmo ouvindo gritos do outro lado máquina. Mas infelizmente, a maioria teve essa atitude. E nessa situação, o papel do “homem de jaleco” é muito importante aqui, pois a pessoa sente-se encorajada a cometer tal ato pelo fato “dele saber o que está dizendo”. Muitas delas perguntaram se ele se responsabilizava pelo que poderia vir a acontecer com a outra pessoa, com medo de ter de assumir o que tinham feito. Essa figura autoritária está presente em vários momentos da nossa vida. E estamos acostumados a obedecê-la. Já está naturalizado na sociedade que nós devemos aceitar e não questionar. Muitas vezes, isso faz com que as autoridades se aproveitem e utilizem de meios para se promover, como foi o caso de Hitler, com o Nazismo e de muitos governantes hoje em dia, principalmente no Brasil. Não estou incentivando a desobediência, nem dizendo que ninguém questiona. Apenas provocando uma reflexão sobre muitas situações que vivenciamos.
        Achei a pesquisa de Stanley Milgram bastante interessante. E mais ainda, seu resultado, pois assim como os psicólogos, não acreditei que mais da metade dos candidatos chegariam ao ponto de tirar a vida de uma pessoa, com um choque. Muitas pessoas da turma, durante a discussão do texto na aula, disseram que haviam se colocado no lugar das pessoas que apertavam os botões. Também me coloquei nessa posição e confesso que fiquei com receio do que faria, uma vez que o contexto te leva a fazer coisas que você negaria, sendo Stanley. E analisando esse lado, Milgram foi cruel com os voluntários, pois não se interessou em como ficaria o emocional deles, após descobrirem o que haviam feito. Apesar de ser uma encenação, o estresse pelo qual eles passaram e os sentimentos que sentiram com certeza não foram fictícios. Mas apesar disso, Milgram provou sua teoria, de que a situação é sim, uma variável importante para se avaliar um comportamento de uma pessoa. Muitos dos voluntários, ao saberem a verdade, tentavam usar de características e atributos pessoais positivos para “se sentir melhor’: sou vegetariano, estudante, pai de família, etc. O lado bom é que a pesquisa nos faz perceber o quão podemos ser influenciáveis, e como nos sentimos pressionados por fazer a coisa certa (mesmo sem saber se de fato é). Como diz Slater no texto, assim como Stanley Milgram, os psicólogos sociais acreditam que a psique é menos importante do que o contexto. Tenho minhas dúvidas, pois acredito que ambos exercem uma grande influência sobre comportamento humano.

Figura 1 




“Usualmente não é o caráter de uma pessoa que determina como ela age, mas sim a situação na qual ela se encontra.”

- Stanley Milgram

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