A postagem dessa semana vem de um livro
escrito por uma psicóloga e jornalista, Lauren Slater. O texto a ser tratado (“Obscura
– Stanley Milgram e a obediência à autoridade”) é, na verdade, o segundo capítulo
de seu livro “Mente e Cérebro”. Diferentemente das outras leituras, essa foi
bem prazerosa, pois a forma como a autora aborda as questões, faz com que o leitor
se interesse bastante, se sentindo incentivado e instigado pela forma como o tema
é narrado. Ela vai descrevendo as situações e os contextos, nos dando a
sensação de que estamos presentes no momento.
O principal assunto do texto é a
obediência do ser humano. Com isso, ela usa um experimento feito por Stanley
Milgram e desenvolve seu texto a partir dessa descrição. Milgram foi um professor-assistente
de psicologia na Universidade de Yale, Estados Unidos. Vivendo em um cenário histórico
pós Holocausto, ele quis entender como se dava a obediência das pessoas, frente
às autoridades. Além disso, por ser psicólogo social, queria compreender também
em que medida a situação influenciava nesses casos, porque ele achava que quando
um sujeito era submetido a um contexto convincente, este poderia agir de forma
a abandonar seus valores e sua moral, como forma de obediência. Sendo assim,
teve a ideia de criar uma experiência que tinha como objetivo comprovar essa
sua teoria. Como descreve a autora, Stanley Milgram criou uma “falsa e convincente” máquina de choque.
O experimento necessitava de duas pessoas: uma levaria os choques, como castigo
por não acertar a sequência de palavras dita pelo outro voluntário; a outra
pessoa apertaria os botões (figura 1) que ativariam os choques (de 45 até 450
voltagens), na medida em que o sujeito fosse errando. O fato é que existiam
dois atores envolvidos naquela ocasião. A pessoa que supostamente levaria o
choque e um cientista, que estaria conduzindo a pesquisa. Não havia choque de
verdade, nem cientista. Eram oferecidos quatro dólares para aqueles que
concordassem em participar, alegando que o intuito do experimento era “o interesse em aprender os efeitos da
punição sobre o aprendizado”. Essa pesquisa foi feita com várias pessoas de
diversos países, na década de 60, sendo financiada pela Fundação Nacional da
Ciência. De fato, é uma coisa meio assustadora, pois além de se tratar de castigo
físico, os voluntários foram de certo modo, enganados. Isso fez com que Milgram
recebesse severas críticas, uma vez que a atitude de não revelar a verdadeira
intenção do experimento era vista como antiética.
O
que ele desejava saber, era a porcentagem de pessoas que iriam obedecer aos
comandos do suposto cientista e quantos iriam desistir. Milgram questionou os profissionais
da área de psicologia a respeito da opinião deles sobre qual seria o limite das
pessoas, até em que momento elas continuariam dando o choque. Todos disseram
que ninguém passaria da voltagem de 150. Todos erraram. 65% dos voluntários foram
até o fim. E apenas, 35% desistiram. É importante dizer, que o cientista
colocava os aparelhos na pessoa que seria punida na frente da que iria punir, além
de testar a máquina de choques no candidato que apertaria os botões. O ator ia “reagindo”
aos choques, conforme a voltagem ia aumentando... com gritos, frases de dor e
de pedidos para que os choques parassem. Mas ainda sim, 65% seguiram em frente.
A autoridade daquela situação era o cientista ou, apenas, um ator vestido com
um jaleco, que fazia uma interpretação convincente de seu papel. As pessoas continuaram porque esse ator, os
incentivava todo o tempo, dizendo: os choques não vão fazer nenhum mal, você
deve continuar. Ao escutar sobre ou ler o experimento, não ficamos muito
convencidos, por parecer que a pessoa não seria ingênua ao ponto de se fazer
influenciar desse modo, sendo capaz de continuar com a tortura, mesmo ouvindo
gritos do outro lado máquina. Mas infelizmente, a maioria teve essa atitude. E nessa
situação, o papel do “homem de jaleco” é muito importante aqui, pois a pessoa
sente-se encorajada a cometer tal ato pelo fato “dele saber o que está dizendo”.
Muitas delas perguntaram se ele se responsabilizava pelo que poderia vir a
acontecer com a outra pessoa, com medo de ter de assumir o que tinham feito. Essa
figura autoritária está presente em vários momentos da nossa vida. E estamos
acostumados a obedecê-la. Já está naturalizado na sociedade que nós devemos
aceitar e não questionar. Muitas vezes, isso faz com que as autoridades se
aproveitem e utilizem de meios para se promover, como foi o caso de Hitler, com
o Nazismo e de muitos governantes hoje em dia, principalmente no Brasil. Não
estou incentivando a desobediência, nem dizendo que ninguém questiona. Apenas
provocando uma reflexão sobre muitas situações que vivenciamos.
Achei a pesquisa de Stanley Milgram
bastante interessante. E mais ainda, seu resultado, pois assim como os
psicólogos, não acreditei que mais da metade dos candidatos chegariam ao ponto
de tirar a vida de uma pessoa, com um choque. Muitas pessoas da turma, durante
a discussão do texto na aula, disseram que haviam se colocado no lugar das
pessoas que apertavam os botões. Também me coloquei nessa posição e confesso
que fiquei com receio do que faria, uma vez que o contexto te leva a fazer
coisas que você negaria, sendo Stanley. E analisando esse lado, Milgram foi
cruel com os voluntários, pois não se interessou em como ficaria o emocional
deles, após descobrirem o que haviam feito. Apesar de ser uma encenação, o estresse
pelo qual eles passaram e os sentimentos que sentiram com certeza não foram
fictícios. Mas apesar disso, Milgram provou sua teoria, de que a situação é
sim, uma variável importante para se avaliar um comportamento de uma pessoa. Muitos
dos voluntários, ao saberem a verdade, tentavam usar de características e
atributos pessoais positivos para “se sentir melhor’: sou vegetariano,
estudante, pai de família, etc. O lado bom é que a pesquisa nos faz perceber o
quão podemos ser influenciáveis, e como nos sentimos pressionados por fazer a
coisa certa (mesmo sem saber se de fato é). Como diz Slater no texto, assim
como Stanley Milgram, os psicólogos sociais acreditam que a psique é menos
importante do que o contexto. Tenho minhas dúvidas, pois acredito que ambos
exercem uma grande influência sobre comportamento humano.
Figura 1
“Usualmente não é o caráter de uma pessoa que
determina como ela age, mas sim a situação na qual ela se encontra.”
- Stanley Milgram


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