sexta-feira, 13 de junho de 2014

Patologia do tédio

        O semestre está acabando e a postagem de número 13 já é a penúltima. Tem como tema a manifestação do tédio nos indivíduos em contexto de isolamento. O artigo a ser analisado foi escrito por Woodburn Heron na década de 70, no livro “Psicobiologia: as bases biológicas do comportamento”. O título do texto é “A patologia do tédio”.


        Em 1951, um psicólogo chamado Hebb, juntamente com alguns colaboradores – um deles é o autor deste artigo – conseguiu financiamento para realizar uma pesquisa que tinha como objetivo analisar o comportamento de pessoas quando expostas a ambientes totalmente monótonos por períodos prolongados. Os pesquisadores tiraram dos voluntários, intencionalmente, tudo aquilo que poderia estimular os sentidos. O experimento consistia em deixar o indivíduo em um cubículo iluminado 24 horas por dia, que possuía ar condicionado e uma cama confortável. Eles poderiam sair apenas para fazer as refeições e irem ao banheiro. Além disso, as modificações nas atividades cerebrais foram registradas antes, durante e após a pesquisa, por meio de eletroencefalogramas. A duração do experimento era indeterminada, só teria fim quando o voluntário solicitasse sua saída. Todos participantes eram homens, estudantes e que recebiam 20 dólares por dia. Foram feitos testes variados, durante e após o período de isolamento, que tinham o intuito de analisar o quanto suas capacidades sensoriais, mentais e comportamentais tinham sido afetadas. Na maioria dos resultados, os resultados sofreram alteração e notou-se uma piora crescente, conforme passavam os dias.
        A explicação dessa mudança segundo os pesquisadores dizia que o desempenho dos voluntários tinha sido comprometido pelo fato de estarem em ambientes monótonos, tediosos. Várias foram as alterações. Em um dos testes, eles analisaram a atitude do indivíduo com relação aos fenômenos sobrenaturais, antes e depois da experiência. Durante a pesquisa, eles ouviram uma palestra sobre o assunto e foi verificado, que, após ouvirem-na, muitos tinham mudado de opinião a respeito do assunto e tinham dificuldade de argumentar sobre, além de passarem a ter medo de ver fantasmas. Ademais, mudanças comportamentais foram percebidas, como agitação, irritação e distração. Outros sentiam dificuldades de encontrar o caminho para o banheiro e fazer atividades simples, como responder perguntas ou manter um pensamento. Essas eram tarefas difíceis de serem cumpridas. Segundo Heron, o isolamento e a não estimulação, propiciavam uma mudança gradual no conteúdo mental dos sujeitos. Apesar disso tudo, o resultado mais surpreendente do estudo, inicialmente não tinha despertado muito interesse nos pesquisadores, mas depois, tornou-se o mais interessante: eram as alucinações. A princípio, os fenômenos visuais eram mais simples, ficando mais complexos com o passar dos dias. Passavam de formas simples, como figuras geométricas para cenas integradas, como uma “(...) fila de esquilos, com sacos nos ombros, marchando resolutamente pelo campo visual. Mas a principal questão é que as alucinações passaram a influenciar demasiadamente nas vidas dos sujeitos, chegando ao ponto de interferir no sono e de influenciarem na percepção das coisas e do ambiente, após o experimento. Alguns estudantes também relataram que a alucinação não era apenas visual, mas também auditiva e que chegava a afetar o tato, pois sentiam sensações na pele.
        Os resultados do texto, segundo Heron, são semelhantes aos resultados de estudos feitos no cérebro. Ambos mostraram que, os estímulos sensoriais são de extrema importância para manter as atividades e funcionamentos normais do cérebro. O que não acontece quando o indivíduo é exposto a atividades com um grande número de repetições ou quando fica isolado. Agora fica mais fácil entender o quão importante é estimular as atividades cerebrais, por meio de várias alternativas. Uma bastante conhecida, que sempre é recomendada por profissionais da saúde, principalmente para idosos, é de fazer alguma atividade como palavras cruzadas, crochê ou apenas praticar algo que estimule e incite o raciocínio, a atenção ou lógica, para incentivar não só a autoestima, como o funcionamento normal do cérebro. E dessa forma, prevenir doenças, como a Alzheimer. Acredito também, que o isolamento deixa as pessoas mais vulneráveis às emoções destrutivas, que tanto foi mencionada nos textos e nas aulas, e que é, de fato, motivo de dano na vida de muitas pessoas. Creio que um afastamento de vez em quando é necessário, ainda mais se levarmos em conta o estilo de vida a qual estamos expostos hoje em dia. Mas esse afastamento é algo momentâneo, apenas com o intuito de se fazer acalmar, exercitar a paciência para tentar tornar a vida mais leve. E, no caso do isolamento, o efeito é contrário, pois a pessoa vai desenvolver características e comportamentos negativos, como consequência da vida solitária. As relações, a convivência e a experiência são coisas necessárias para o desenvolvimento e crescimento de um indivíduo. 

“A variedade não é o tempero da vida; É sua própria essência.” (Christopher Burney)

Um filme bem famoso, estrelado por Tom Hanks e estreado em 2001, Cast Away ou Náufrago em português, narra a história de um empregado da FedEx que sofre um acidente aéreo e para numa ilha desabitada no meio do Pacífico Sul. Retrata bem o contexto do isolamento. 

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Teoria da Dissonância

        O texto a ser tratado hoje foi retirado do livro “Teoria da Dissonância Cognitiva”, escrito por Leon Festinger, um psicólogo nova-iorquino, na década de 70. Como já dito no título, o livro fala sobre a teoria da dissonância.
        Pois bem, o que seria dissonância? Segundo Festinger, “é a existência de relações discordantes entre cognições, é um fator motivante per ser.” São dois elementos (cognições) que quando relacionados, são contraditórios e destoantes. Para o psicólogo, o termo cognição tem um sentindo amplo, abrangendo elementos desde qualquer tipo de conhecimento (como opiniões ou convicções) até tipos de comportamento. Isso faz com que a dissonância passe a ser cognitiva. A dissonância cognitiva é caracterizada por aquilo que antecede a ação e refere-se à realidade (física, social ou psicológica). Para entender melhor, pode-se substituir o termo dissonância por ‘incoerência’, pois há uma diferenciação entre aquilo que o indivíduo pensa ser o certo e aquilo que ele faz. Do mesmo modo, existe o oposto, que é conhecido como consonância ou coerência, se quisermos usar um termo equivalente. E diferentemente do que parece, esse “fenômeno” é algo muito comum na vida das pessoas e pode ser expressado e vivenciado em diferentes contextos e situações.  
        Os seres humanos estão sempre buscando o equilíbrio como uma forma de conforto, e a dissonância é uma forma de desequilíbrio que vai influenciar na psique e que aparece como uma incoerência. Isso chama-se desconforto psicológico. Para amenizar essa incoerência, os indivíduos procuram meios de se ajustarem e conviver com elas, tentando racionalizá-las ou explicá-las. Essas são atitudes de reduzir a consonância, evitá-la ou eliminá-la. Em muitas partes do texto, o autor compara a dissonância com a fome, pois quando ela aparece, é preciso saciá-la. Da mesma forma opera a dissonância, pois quando ela faz-se presente, a pessoa sente necessidade de procurar meios que acabem com ela. Assim como a fome, quanto maior é, a quantidade de alimento precisa ser grande, e no caso da dissonância, a intensidade das ações, que vão reduzi-la ou eliminá-la. Um exemplo seria o de uma pessoa fumante: apesar de saber que o ato é nocivo a saúde, ela continua fazendo. Essa é uma atitude que caracteriza a dissonância: a contradição existente entre o saber e o fazer. Para tentar diminuir a culpa ou fazer com que o ato de fumar pareça menos errado, ela procura desculpas como: existem doenças que matam mais do o cigarro (isso seria uma redução da dissonância). E a forma de eliminá-la seria parar de fumar. Essa atitude passaria a ser consoante com o conhecimento que a pessoa tem sobre o ato de fumar (fazer mal para sua saúde). Uma outra forma de se lidar com a dissonância, é a adição de um terceiro elemento, que tem o papel de “reconciliar” os outros dois.


        Segundo Frienger, “(...) esse método de redução ou eliminação da dissonância é uma ocorrência muito frequente. Nosso comportamento e sentimentos são frequentemente modificados de acordo com novas informações.” E de fato, pode-se verificar isso na realidade, uma vez que vivemos em sociedade e nos relacionamos a todo tempo, trocando conhecimentos, opiniões... Tudo isso faz parte do amadurecimento e desenvolvimento do ser humano.  O experimento de Stanley Milgram sobre obediência, que foi tratado na postagem anterior, também pode nos servir de exemplo, pois encaixa-se com o trecho do texto que foi citado acima. Durante o experimento, os voluntários agem de uma forma diferente da que agiriam naturalmente, pois são influenciados pelo contexto e pela situação. Os termos contexto e situação podem ser equiparados a “novas informações”. Também encontramos dissonância no experimento, uma vez que os voluntários não acham certo continuar com os choques, mas o fazem, por confiarem no que diz o cientista. Além do que já foi dito, também é importante ressaltar que existem diferentes níveis de dissonância, desde momentâneos até “quase inevitáveis”. Festinger denomina isso de magnitude. Ela varia de acordo com a importância dos elementos cognitivos: se eles tem grande importância, então a magnitude será maior e vice versa. A magnitude também pode ser entendida como um grau de incoerência que existe entre os elementos.
        O fato é que nem sempre a dissonância pode ser reduzida ou evitada, pois ela pode fugir do controle da pessoa e se fazer presente em um nível inconsciente. E assim como o autor conclui o capítulo, digo que as implicações da dissonância não podem ser limitadas, por estarem presentes em várias ações do cotidiano e tornar difícil a generalização e o modo como elas vão se manifestar.

Este link é de um vídeo sobre um experimento de Dissonância Cognitiva: https://www.youtube.com/watch?v=Wvx-gW4vUSc

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Stanley Milgram e seu experimento sobre a obediência

        A postagem dessa semana vem de um livro escrito por uma psicóloga e jornalista, Lauren Slater. O texto a ser tratado (“Obscura – Stanley Milgram e a obediência à autoridade”) é, na verdade, o segundo capítulo de seu livro “Mente e Cérebro”. Diferentemente das outras leituras, essa foi bem prazerosa, pois a forma como a autora aborda as questões, faz com que o leitor se interesse bastante, se sentindo incentivado e instigado pela forma como o tema é narrado. Ela vai descrevendo as situações e os contextos, nos dando a sensação de que estamos presentes no momento.
        O principal assunto do texto é a obediência do ser humano. Com isso, ela usa um experimento feito por Stanley Milgram e desenvolve seu texto a partir dessa descrição. Milgram foi um professor-assistente de psicologia na Universidade de Yale, Estados Unidos. Vivendo em um cenário histórico pós Holocausto, ele quis entender como se dava a obediência das pessoas, frente às autoridades. Além disso, por ser psicólogo social, queria compreender também em que medida a situação influenciava nesses casos, porque ele achava que quando um sujeito era submetido a um contexto convincente, este poderia agir de forma a abandonar seus valores e sua moral, como forma de obediência. Sendo assim, teve a ideia de criar uma experiência que tinha como objetivo comprovar essa sua teoria. Como descreve a autora, Stanley Milgram criou uma “falsa e convincente” máquina de choque. O experimento necessitava de duas pessoas: uma levaria os choques, como castigo por não acertar a sequência de palavras dita pelo outro voluntário; a outra pessoa apertaria os botões (figura 1) que ativariam os choques (de 45 até 450 voltagens), na medida em que o sujeito fosse errando. O fato é que existiam dois atores envolvidos naquela ocasião. A pessoa que supostamente levaria o choque e um cientista, que estaria conduzindo a pesquisa. Não havia choque de verdade, nem cientista. Eram oferecidos quatro dólares para aqueles que concordassem em participar, alegando que o intuito do experimento era “o interesse em aprender os efeitos da punição sobre o aprendizado”. Essa pesquisa foi feita com várias pessoas de diversos países, na década de 60, sendo financiada pela Fundação Nacional da Ciência. De fato, é uma coisa meio assustadora, pois além de se tratar de castigo físico, os voluntários foram de certo modo, enganados. Isso fez com que Milgram recebesse severas críticas, uma vez que a atitude de não revelar a verdadeira intenção do experimento era vista como antiética.
        O que ele desejava saber, era a porcentagem de pessoas que iriam obedecer aos comandos do suposto cientista e quantos iriam desistir. Milgram questionou os profissionais da área de psicologia a respeito da opinião deles sobre qual seria o limite das pessoas, até em que momento elas continuariam dando o choque. Todos disseram que ninguém passaria da voltagem de 150. Todos erraram. 65% dos voluntários foram até o fim. E apenas, 35% desistiram. É importante dizer, que o cientista colocava os aparelhos na pessoa que seria punida na frente da que iria punir, além de testar a máquina de choques no candidato que apertaria os botões. O ator ia “reagindo” aos choques, conforme a voltagem ia aumentando... com gritos, frases de dor e de pedidos para que os choques parassem. Mas ainda sim, 65% seguiram em frente. A autoridade daquela situação era o cientista ou, apenas, um ator vestido com um jaleco, que fazia uma interpretação convincente de seu papel.  As pessoas continuaram porque esse ator, os incentivava todo o tempo, dizendo: os choques não vão fazer nenhum mal, você deve continuar. Ao escutar sobre ou ler o experimento, não ficamos muito convencidos, por parecer que a pessoa não seria ingênua ao ponto de se fazer influenciar desse modo, sendo capaz de continuar com a tortura, mesmo ouvindo gritos do outro lado máquina. Mas infelizmente, a maioria teve essa atitude. E nessa situação, o papel do “homem de jaleco” é muito importante aqui, pois a pessoa sente-se encorajada a cometer tal ato pelo fato “dele saber o que está dizendo”. Muitas delas perguntaram se ele se responsabilizava pelo que poderia vir a acontecer com a outra pessoa, com medo de ter de assumir o que tinham feito. Essa figura autoritária está presente em vários momentos da nossa vida. E estamos acostumados a obedecê-la. Já está naturalizado na sociedade que nós devemos aceitar e não questionar. Muitas vezes, isso faz com que as autoridades se aproveitem e utilizem de meios para se promover, como foi o caso de Hitler, com o Nazismo e de muitos governantes hoje em dia, principalmente no Brasil. Não estou incentivando a desobediência, nem dizendo que ninguém questiona. Apenas provocando uma reflexão sobre muitas situações que vivenciamos.
        Achei a pesquisa de Stanley Milgram bastante interessante. E mais ainda, seu resultado, pois assim como os psicólogos, não acreditei que mais da metade dos candidatos chegariam ao ponto de tirar a vida de uma pessoa, com um choque. Muitas pessoas da turma, durante a discussão do texto na aula, disseram que haviam se colocado no lugar das pessoas que apertavam os botões. Também me coloquei nessa posição e confesso que fiquei com receio do que faria, uma vez que o contexto te leva a fazer coisas que você negaria, sendo Stanley. E analisando esse lado, Milgram foi cruel com os voluntários, pois não se interessou em como ficaria o emocional deles, após descobrirem o que haviam feito. Apesar de ser uma encenação, o estresse pelo qual eles passaram e os sentimentos que sentiram com certeza não foram fictícios. Mas apesar disso, Milgram provou sua teoria, de que a situação é sim, uma variável importante para se avaliar um comportamento de uma pessoa. Muitos dos voluntários, ao saberem a verdade, tentavam usar de características e atributos pessoais positivos para “se sentir melhor’: sou vegetariano, estudante, pai de família, etc. O lado bom é que a pesquisa nos faz perceber o quão podemos ser influenciáveis, e como nos sentimos pressionados por fazer a coisa certa (mesmo sem saber se de fato é). Como diz Slater no texto, assim como Stanley Milgram, os psicólogos sociais acreditam que a psique é menos importante do que o contexto. Tenho minhas dúvidas, pois acredito que ambos exercem uma grande influência sobre comportamento humano.

Figura 1 




“Usualmente não é o caráter de uma pessoa que determina como ela age, mas sim a situação na qual ela se encontra.”

- Stanley Milgram

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Um Modelo Educacional Alternativo – parte 2

        O texto nove, assim como o oito, tem como título “O Método de Instrução Personalizada na Universidade de Brasília: aplicação, análise e comparação com o método tradicional”, e fala sobre um método educacional alternativo aplicado no Ensino Superior (UnB) e no Centro Integrado de Ensino Médio (CIEM).
        O método aplicado, tinha como objetivo fazer o aluno aprender a matéria em seu ritmo próprio. Isso é uma vantagem, se levarmos em conta que não existe essa possibilidade no sistema tradicional. As pessoas possuem vidas diferentes e as formas de assimilar o conteúdo também não são iguais entre elas. Por esse motivo, existe uma flexibilidade dentro desse sistema, que vai permitir que o aluno se adeque a matéria da forma que ele achar melhor. Esse sistema consegue fazer a junção das individualidades de cada um e proporcionar o máximo de aproveitamento da matéria (pois só é permitido avançar na unidade se o teste estiver 100% correto). É fato que os alunos reclamam muito de não ter aprendido tal matéria e sim, decorá-la para fazer a prova. E, infelizmente, isso é uma verdade. Não só na escola, como na universidade e nos vestibulares, concursos... No caso dos dois últimos, envolve uma outra questão, que tem a ver com a quantidade de vagas oferecidas pelas instituições: não são suficientes, então é preciso selecionar os melhores para ingressar. Apesar de não vir muito ao caso, esse é um caso que nos faz lembrar de uma outra realidade do sistema tradicional: curva de Gauss.
        Essa curva representa a distribuição normal, um conceito de Estatística, que consiste em representar uma média de números. No caso em análise, os números seriam referentes às notas de uma turma. A figura abaixo demonstra como são distribuídos os números entre as médias: mínima, média e máxima.


        É a partir dela que os professores analisam o rendimento de uma turma, onde o normal seria que a maioria dos alunos se encontrasse no meio da curva – na figura, é retratada pelas barras de “expressividade medida do caráter” (notas na média); alguns poucos nas extremidades: a extremidade da direita, estariam os que alcançaram as melhores notas, acima da média. E por fim, teriam os que teriam média inferior, na parte esquerda, com as menores notas. Apesar de ser uma boa ferramenta, a curva de Gauss não mostra dados satisfatórios, uma vez que a maior parte dos alunos encontra-se na média. Isso demonstra que o desempenho deles na matéria não foi suficiente. Há algo de errado nesse ponto, pois apesar de serem poucos, alguns conseguem a nota máxima. E o certo seria uma inversão dessa curva, onde a maioria estivesse com notas máximas e uma minoria com notas médias. Segundo as discussões em sala, chegamos a conclusão de que o culpado por esse resultado é o professor, uma vez que ele é responsável por fazer com que o conteúdo seja acessível a todos, sendo dever dele escolher a melhor metodologia para transmiti-lo e fazer com que o aprendizado seja efetivo.
        A segunda parte do texto traz muitos gráficos, com os resultados dos alunos de cada curso... mecânica, introdução a física, cálculo numérico, cálculo 1, entre outros. A maioria dos resultados é boa, com algumas pequenas variações. Há também uma diferença de rendimento entre os calouros e os repetentes (repetiram a matéria no método tradicional), pois os primeiros costumam se sair melhor do que os segundos. Segundo o autor, a opinião dos alunos sobre o método (é aplicado um questionário) é dividida: “Há alunos que sentem em demasia a pressão colocada pelo método e há outros que acham que o método os coloca completamente à vontade. Na maioria dos cursos, como é claro, sempre predomina este último tipo de estudante. Os aspectos aversivos do método são inevitáveis, mas felizmente são em bem menor número do que os aspectos positivos. Não podem se comparar com aqueles existentes no método tradicional de ensino.”

        Então, pode-se concluir que com sistemas alternativos e que quebram essa rigidez e inflexibilidade do método tradicional, há um incentivo ao aprendizado para os alunos, que se sentem mais estimulados a estudar. O método de instrução personalizado é apenas uma forma, dentre várias, que podem ser criadas e aplicadas na sala de aula. Falo isso porque tive uma matéria, FDA (Fundamentos de Desenvolvimento e Aprendizagem) que possuía essa compreensão da individualidade do aluno e dispunha de várias formas de avaliação. Apesar de não ser igual ao método proposto no texto, me faz lembrá-lo. Assim, esse texto veio para nos fazer refletir e nos fazer perceber o quão é importante oferecer caminhos diferentes no ensino, mas que tenham como objetivo promover o conhecimento e despertar o interesse no aluno, de forma que possam oferecer resultados melhores do que se tem hoje em dia. 


Este é um livro bem interessante e de fácil leitura, que questiona o sistema tradicional. Apesar de não se aplicar ao contexto do Ensino Superior, como no texto analisado acima, traz uma discussão acerca do papel da Escola no desenvolvimento da criança. Recomendo a leitura!  

- Harper, B.; Cecon, C.; Oliveira, M. D. & Oliveira, R. D. (1980). Cuidado, Escola! São Paulo: Brasiliense. 

sábado, 24 de maio de 2014

Um Modelo Educacional Alternativo

       O texto oito é intitulado de “O Método de Instrução Personalizada na Universidade de Brasília: aplicação, análise e comparação com o método tradicional”, escrito por Luiz Felippe Serpa, no ano de 1970. O tema principal é o questionamento do ensino tradicional e a partir disso, o surgimento de uma nova proposta de aprendizagem.  Assim como o texto sobre a prevenção do suicídio, este também foi dividido em duas partes.
       Segundo Serpa: “É verdade que muitos esforços têm sido feitos para melhorar o rendimento pedagógico do ensino e, ao mesmo tempo, oferecer instrução a um grande número de pessoas com vistas ao aumento da produção; no entanto, todas essas tentativas têm sido conduzidas ao fracasso, pois o processo de educação tradicional, para manter um bom rendimento pedagógico, deve ter uma relação linear entre o número de educandos e o de educadores.” Apesar desse trecho ter sido escrito na década de 70, esses fatos são bem atuais, afinal, o ensino sempre se baseou em uma pessoa – no caso o professor – que possui o domínio do conhecimento e o transmite para um grupo de pessoas – alunos. Claro que houve uma melhora ao longo do tempo, no que se refere a elementos e práticas utilizadas nesse processo de aprendizagem. Mas isso não foi o suficiente para transformar esses papéis, que sempre estiveram tão enraizados. Como é citado no trecho, o rendimento pedagógico dos alunos em geral, não era satisfatório. Esse é ponto de partida para a nova proposta de modelo de ensino, conhecida como Plano Keller.


        Esse plano tinha como princípio o método de Instrução Personalizada, que foi criado pelo psicólogo F. S. Keller e que foi utilizado (no ano de 1964) em um curso de Psicologia Experimental, na Universidade de Brasília (UnB). Mas o professor não continuou na Universidade e o método não durou. Até que em 1969, o professor L. C. Gomes, do departamento de Física da UnB, decidiu reutilizá-lo. O método pretendia:
a) Melhorar as relações aluno-professor;
b) Introduzir métodos racionais de trabalho na educação;
c) Humanizar o processo de ensino de massa;
d) Atender um grande número de alunos sem prejuízo do rendimento pedagógico;
e) Obter uma relação não linear entre número de alunos e número de professores e salas.
        Para alcançar esses objetivos, o método contava com um professor, monitores e instrutores, de acordo com o tamanho de cada turma. Cada um deles tinha um papel fundamental para a eficácia do projeto. O professor era como o coordenador do curso, pois conduzia e mediava todo o processo; ele desenvolvia todo o material que iria ser utilizado, que era dividido em unidades, além de preparar os testes e dar palestras, quando os alunos solicitassem. Os monitores tiravam as dúvidas dos alunos, também aplicavam e corrigiam os testes. Os instrutores tinham o papel de auxiliar os monitores e o professor; eram estudantes de graduação recém-formados, normalmente estavam cursando a pós-graduação e visavam carreira acadêmica. Não havia aula expositiva e também não existia data fixa para a realização dos testes; a pessoa os solicitava quando sentia-se apta a fazê-lo. O progresso do aluno consistia em avançar nas unidades, que só estaria completa depois da realização do teste e do acerto de todas as questões. Claro que nem sempre o aluno tirava nota máxima. Por isso, o monitor fazia uma “entrevista” para ver se ele conseguia responder as questões que faltavam, ou então, a pessoa refazia o teste, até conseguir acertar tudo. Algo que é importante destacar é que os monitores eram em grande número, o que facilitava a aprendizagem do aluno, uma vez que a maior quantidade de pessoas disponíveis sugere menos competição pela atenção (o que acontece quando se tem apenas um professor); e não só isso, como também uma aproximação maior do aluno com o monitor, uma vez que este também é aluno de outras matérias, então existe algo em comum entre ambos. Além disso, se por algum motivo o aluno quisesse trancar a matéria, poderia continuar no semestre seguinte de onde parou, sem ter tido a nota lançada no sistema ou recebido reprovação. Como está descrito no texto, “a característica principal do método é a de permitir progredir, do começo ao fim do curso, no ritmo que melhor lhe convier.” Acho importante fazer uma observação antes de continuar: naquela época, havia poucos professores e muitos alunos na UnB. Então, essa foi uma alternativa encontrada para solucionar esse problema.                
        Depois de um tempo, o método foi intensificado no Departamento de Física e foi adotado no Departamento de Matemática e no CIEM (Centro Integrado do Ensino Médio). Mas não vou estender o assunto, por causa da segunda parte do texto. Deixo assim, a reflexão em aberto, para dar continuidade a ela na próxima postagem! 

sábado, 17 de maio de 2014

Adicção, Antecipação e Tolerância à drogas

  O texto de número 7 tem como tema as drogas e fala sobre alguns conceitos que envolvem seu uso. Alguns desses conceitos já são explicitados no próprio título: adicção, antecipação e tolerância. Além deles, tolerância e condicionamento pavloviano também serão explicados. O autor é Shepard Siegel, da McMaster University, Canadá.
   Ele começa falando que existem vários estudos e pesquisas sobre alguns sintomas que os usuários sentem. mas ao contrário do que se parece, os estudos não estão voltados para esses sintomas na fase em que o usuário de drogas está consumindo-as e sim, sobre como elas ainda existem após do tratamento ter acabado. Com isso, Siegel fala sobre “o estudo do responder antecipatório a efeitos biologicamente significativos”, que é conhecido como condicionamento pavloviano. Basicamente, tudo aquilo que está envolvido no uso da droga: contexto, instrumentos, pessoas, ambiente. Tudo isso vai influenciar a mente e o organismo do indivíduo. Também podemos chamá-los de estímulos condicionados (pistas que antecedem o uso da droga). Já o efeito direto da droga é chamado de estímulo incondicionado (componente farmacológico), que  diferentemente do outro estímulo, independe de fatores externos para acontecer.
   A partir disso, é possível entender o conceito de tolerância: “ocorre quando o efeito de uma droga diminui ao longo de administrações repetidas. Ou seja, o organismo acaba se acostumando após um determinado período de uso constante e seu efeito já não é mais o mesmo, conforme o tempo vai passando. O condicionamento pavloviano aqui também tem grande importância, pois além da atuação do componente farmacológico ser diferente no organismo da pessoa, os estímulos condicionados tem um papel de grande influência, porque criam efeitos de associação que acontecem inconscientemente, e que afetam o organismo, além de prepará-lo para aquela situação. O esquema abaixo mostra o resultado de um teste que prova a “especificidade da situação de tolerância”. O teste consistia em administrar a droga em um rato em duas situações: em um ambiente habitual de administração de drogas (ambiente A) e em um ambiente diferente e desconhecido (B). O resultado foi que a tolerância no ambiente atual ocorre (o efeito da droga no organismo diminuí), enquanto que no ambiente B, a tolerância não ocorre, ou seja, o efeito é parcialmente ou totalmente reintegrado. Esse teste também foi comprovado em outras situações, como o consumo de café ou de álcool e os resultados foram iguais. Segundo Siegel: pistas associadas à droga produzem respostas compensatórias condicionais que atenuam o efeito da droga; portanto, a tolerância é maior quando é avaliada na presença de estímulos associados à droga do que quando é avaliada de modos alternativos.
 Teste de especificidade da situação de tolerância

   O outro sintoma trabalhado, é o de abstinência. Diferentemente do esperado, esse sintoma é causado mais pelas respostas compensatórias do que pela falta da droga em si. Mas o que são essas respostas compensatórias? É a forma que o organismo reage, quando não está preparado, assim como aconteceu no teste acima, quando a droga era administrada em um ambiente diferente do habitual. Essas respostas são as formas que o corpo encontra para se preparar. Mas se pensarmos bem, isso não se restringe somente ao uso de drogas, pois o corpo sempre busca meios de adaptação. Um belo exemplo seria pegar alguém que vive em Brasília há muito tempo e um turista, ambos na época da seca, e compará-los: claro que o primeiro vai reagir melhor, uma vez que já está acostumado e adaptado a esse tipo de clima. Dessa forma, o autor diz que as respostas compensatórias atingem um ponto máximo no organismo, pois o corpo não foi modulado para receber a substância naquele contexto. Particularmente, achei essa parte do texto interessante, pois a minha visão de abstinência era outra, onde o sintoma surgiria por causa da falta substância e não por fatores externos ao organismo.
   Um outro ponto abordado no texto é a relação da auto-adiministração e tolerância. Esta relação também é considerada uma situação de especificidade da situação de tolerância, pois a auto-administração funciona como um estímulo condicionado, tendo em vista que o indivíduo possui algum tipo de motivação interna para utilizar tal substância. E isso faz com que o organismo crie as respostas compensatórias. Assim, toda vez que a pessoa vai auto-adiministrar a droga, a tolerância vai ocorrer depois de um tempo, pois o corpo e os sinais externos à ele serão moldados para receber a droga, fazendo com que os efeitos não sejam mais os mesmos, com o passar do tempo.
   Por fim, Siegel diz que os sintomas de abstinência de drogas e recaídas são frequentes se o indivíduo é exposto a pequenas doses da substância. Ele dá o exemplo de um alcoólatra que “perde o controle” ao experimentar uma bebida com álcool. O autor explica esse comportamento como uma associação feita pelo adicto (mesmo significado que o termo “viciado”) aos primeiros efeitos da droga durante as primeiras experiências. Esses fatores são importantes para se pensar em um tratamento que seja realmente eficaz. Uma alternativa seriam as terapias comportamentais para a adicção baseadas no condicionamento, também conhecidas como terapias de “exposição a pistas”. A proposta é que o paciente possa vivenciar os estímulos condicionados, mas sem ter acesso a droga. Siegel e Ramos vão além e dizem que o individuo também deve ser exposto a pequenas quantidades da substância e ter permissão para participar de rituais de auto-administração. Pode parecer errado, mas no fundo, faz mais sentido do que privar o paciente de usar a droga de uma hora pra outra. Essa atitude é bem mais drástica e não há garantia de que ele vai resistir, se precisar enfrentar uma situação que não possa usar a droga. Se a substância for retirada aos poucos, a chance de recuperação é muito maior, uma vez que o organismo vai poder se reequilibrar. E, quando exposto a droga, não vai ter sintomas de recaída, pois o corpo já vai ter se readaptado.  Por isso é tão importante levar em conta a história pessoal de cada indivíduo. Além, disso esse tratamento é interessante, pois ele não busca tratar somente os sintomas e sim, os sintomas e as causas.

“Compreender a adicção requer uma compreensão da história de condicionamento que faz com que esse fantasma se materialize. O tratamento eficaz requer uma consideração de como o condicionamento pode ser usado para exorcizar o fantasma.”
                                                                                                                                       Shepard Siegel

E agora, um pouco de Amy Winehouse - Rehab



sábado, 10 de maio de 2014

Classificação dos transtornos

  O texto de número de 6 tem como título: “Sobre ser são em lugares insanos – experimentos com diagnóstico psiquiátrico” e foi escrito por uma psicóloga. Assim como o anterior, tem como tema central doenças psiquiátricas e se desenvolve a partir de um experimento feito por um psicólogo no início da década de 70, com o objetivo de afirmar aquilo que ele considerava errado nos diagnósticos psiquiátricos.
   O experimento proposto por Rosenhan consistia em procurar ajuda em algum hospital psiquiátrico/clínica psiquiátrica alegando escutar uma voz que dizia “Tum”. A palavra tum foi escolhida por não estar presente na literatura ou em nenhum relato de pessoas que ouviam vozes. Além dele, mais oito amigos concordaram em participar e contribuir com suas experiências. Foram trocados os nomes e alguns mentiram sobre sua ocupação, pois haviam psiquiatras entre eles (isso poderia dificultar o acesso). O combinado era entrar na enfermaria do local e falar que estava ali por causa da voz.  Escutar uma voz é uma característica de psicose, o que facilitaria a “encenação”. Mas após serem internados (foi o caso de todos), deveriam dizer que a voz havia desaparecido e que se sentiam bem, além de agirem com honestidade durante todo o período que permanecessem internados. Eles seriam, então, pseudopacientes. Como já disse antes, o resultado foi que todos foram internados. A maioria recebeu o diagnóstico de esquizofrenia e, apenas um, recebeu o diagnóstico de psicose maníaco-depressiva. A média de dias em que os oito permaneceram nos hospitais foi 19, tendo em vista que a maior permanência foi de 52 dias e a menor, de 7. Todos foram liberados, sendo que sua sanidade essencial nunca foi identificada. Além disso, Rosenhan concluiu que, assim como eles, os pacientes estavam sendo tratados de uma forma desumana, no sentindo de serem mal tratados e diminuídos (ele caracteriza isso como redução de status).
   Com isso, David Rosenhan chegou a conclusão de que os diagnósticos de doenças mentais estavam sendo feitos de maneira errônea, pois baseavam-se apenas em comportamentos considerados característicos de quem “não é normal”. Viu que a psiquiatria encontrava-se num patamar duvidoso enquanto ciência. De acordo com que a autora descreve, ele dizia que “o diagnóstico não é realizado dentro da pessoa, mas dentro do contexto, e que qualquer processo diagnóstico que se empresta tão prontamente a erros enormes dessa espécie não pode ser muito confiável”. Com toda essa postura crítica, é claro que Rosenhan comprou uma briga com os profissionais da área. Robert Spitzer, psiquiatra e psicanalista, foi um defensor que se propôs argumentar contra David. Ele acreditava que a psiquiatria era um modelo médico. E, além disso, partiu para a prática e junto com uma equipe, reformulou o DSM (Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais), com o propósito de deixá-lo mais científico e rigoroso, com o intuito de impedir erros graves novamente. O problema encontra-se aqui, segundo a autora e David Rosenhan: a ciência se baseia naquilo que pode ser comprovado, visto, palpável. No caso da medicina, baseia-se no corpo. A psiquiatria é uma exceção, por ter como objeto a mente humana, que não é nenhum pouco palpável e, muito menos, objetiva. Assim, ela trabalha com suposições, com “algo mensurável”, como é citado no texto.
   A autora decide, anos depois, refazer a mesma experiência de Rosenhan e, felizmente, não é internada, depois de várias tentativas. Mas apesar disso, sempre é diagnosticada com depressão com características psicóticas. Diz também que foi bem tratada por todos os profissionais que a atenderam (provavelmente, foi resultado da reformulação do DSM, e houve uma melhora, se lembrarmos do tratamento desumano citado por David e seus colegas). Mas diz, que ainda sim, não eram feitos “exames completos” para testar seu nível de sanidade mental. E eis que surge a grande pergunta, pois, se a psiquiatria não trata de algo que é tangível (a mente), então como pode ficar satisfeita em apenas se basear em relatos e sintomas do paciente ou medir o pulso e, a partir disso, diagnosticá-lo com doença mental? Pode ser ferrenho da minha parte, mas a meu ver, justamente por não ter provas concretas, – na medicina, se você quebra um osso, faz uma radiografia e pode ver que ele está de fato, quebrado – é que o cuidado com esse diagnóstico deveria ser redobrado. Não sei como, pois entendo quase nada desse assunto, mas algo deveria ser feito. Até por que, cada paciente tem um histórico diferente. Assim como já disse em outras postagens, é aquela história de olhar para o indivíduo como sendo único. Até lembrei de Descartes, que propunha analisar a mente e o corpo separadamente, mas ao mesmo tempo compreender que existe uma relação de interdependência entre ambos. Quem sabe, o corpo não dá algumas dicas para ajudar no diagnóstico mental?

   O fato é que a mente humana é bem complexa e, portanto, a psiquiatria acaba tornando-se vulnerável se olharmos desse modo, no sentido de tentar entender algo que não é tão previsível e regular. Como foi dito no texto, as pessoas que tem doenças mentais, acabam sendo rotuladas e classificadas, por possuírem tais características de tais doenças. E, infelizmente, isso acontece, pois não se pode compreendê-las 100%. E é assim que agimos, quando não temos plena compreensão de algo ou porque simplesmente é mais cômodo... rotulamos e classificamos. Não sei se consegui me fazer clara, pois acho que o tema em si não permite tanta clareza. Mas gostaria de poder dizer o contrário. Pode ser que o cenário mude daqui a algum tempo, afinal, temos a tecnologia a nosso favor. Mas será que ela é capaz de dar conta dessa tarefa? De desvendar a mente humana? Tenho minhas dúvidas. 

Aqui vão alguns filmes que mostram personagens com distúrbios psiquiátricos:
- O Iluminado (1980)
- Amadeus (1984)
- Psicose (1960)
- Procurando Nemo (2003)
- Garota Interrompida (1999)
- O Solista (2009)
- Rain Man (1988)

domingo, 27 de abril de 2014

Bipolaridade sob o olhar de uma enfermeira

  “Assistência de Enfermagem a pacientes com desordem bipolar e sentimentos da estudante de enfermagem: estudo de caso”, é o texto da postagem de hoje. O desenrolar deste tem a ver com o que o próprio título já diz. A estudante precisa estagiar, e durante esse processo, ela estuda o caso de uma senhora que sofre de perturbação bipolar.
   Primeiramente, a autora, Luciana Martins, faz uma descrição do vem a ser a doença. A perturbação bipolar é uma psicose caracterizada essencialmente por um distúrbio no humor da pessoa. De uma forma geral, a doença é chamada de Psicose Maníaco-Depressiva (PMD), mas se subdivide em: maníaca, depressiva ou mista. Essa subdivisão vai depender do quadro de sintomas em que o indivíduo se encontra no momento. No caso do paciente que possui o distúrbio misto, ele pode passar diretamente de uma fase a outra ou, após o término de uma, permanecer com o humor estável durante um período antes de ir para a outra.
- A fase maníaca se manifesta quando a pessoa encontra-se em um estado de euforia e tem um humor muito elevado; além de agitação e alguns sintomas como insônia, aumento da libido e sentimentos de grandiosidade. Pode apresentar quadros de irritabilidade também. E como descreve Martins, “em casos mais graves, este
tipo de paciente torna-se tipicamente psicótico com fugas de ideias, fala desorganizada, agitação psicomotora, delírios de grandeza e mesmo alucinações.”
- A fase depressiva acontece quando o paciente sofre um período de melancolia (já tratada nas antigas postagens, com ênfase em Freud...lembra?) e falta de interesse na vida. Sintomas como desânimo, falta de interesse e prazer são comuns nessa fase. O paciente também alimenta pensamentos ruins e tem opinião pessimista sobre si próprio. “O deprimido (...) tem um caráter de baixa autoestima, sente-se muito inseguro, possui dificuldades para tomar decisões, sente-se culpado, pensa em suicídio, tem perda de
apetite e, como consequência emagrece, diminui a libido e apresenta insônia.”
Obs.: O paciente recebe em cada fase, uma medicação diferente e específica para tratar os sintomas.

      Após essa descrição sobre como é a doença, a autora foca na relação paciente-enfermeira. Ela diz que essa relação é de extrema importância para o tratamento e que a atendente precisa usar não só dos seus conhecimentos da área de saúde, mas também das suas próprias características individuais para lidar com situações mais complicadas.
   No caso dos pacientes de PMD, os enfermeiros vão enfrentar vários problemas, no que se refere ao comportamento deles, que varia muito de acordo com a fase. Cabe a equipe de assistência, amparar de todas as formas o paciente e dar à ele o que ele necessita. Não só em termos de medicamento, mas também o apoio emocional, físico e de cuidados em geral. E, além disso, ela destaca o quão é importante que o profissional seja paciente, pois muitas vezes ele é levado ao extremo durante o tratamento e o convívio com quem sofre da doença. Segundo as palavras de Martins: “ Durante a fase maníaca, existe a dificuldade de evitar o medo, a rejeição e a irritação que o paciente provoca nos membros da equipe de enfermagem, dada a sua agitação e agressividade. Na fase depressiva, sentimentos de irritação e impotência, dificuldades de demonstrar aceitação e paciência frente ao comportamento do paciente, são gerados nos membros da equipe, dado o desânimo e a falta de cooperação do paciente.” E que mesmo sendo muito difícil, deve-se buscar uma postura não crítica, em que a enfermeira tente compreender a situação, saiba ouvir (essa é uma postura bastante parecida com a dos voluntários do CVV) e estar pronta para oferecer ajuda e amparo sempre que ele precisar. Dessa forma, é responsabilidade do profissional zelar pela própria segurança do paciente, uma vez que este fica vulnerável na fase depressiva, por apresentar comportamentos que podem levar até mesmo o suicídio. E não só na fase depressiva, pois há períodos em que ele fica agressivo na fase maníaca. Todas essas coisas podem não parecer tão significantes, mas fazem parte do processo e são conhecidas como medidas terapêuticas.
   A paciente que Luciana ficou responsável durante o estágio, foi a mesma que ela utilizou como exemplo para relatar como foi a experiência de assistência a enfermagem. O diagnóstico da paciente de 61 anos era de Psicose Maníaco-Depressiva crônica, de ciclagem rápida (não possui períodos de estabilidade no humor). Ela já havia sido internada no hospital psiquiátrico duas vezes anteriormente e, na terceira, foi internada durante a fase maníaca. A estagiária pôde presenciar as duas fases da doença. A primeira foi a depressiva, na qual R. (modo como a autora refere-se a paciente) manifestava os sintomas que foram descritos mais acima. Martins diz que foi complicado no início, pois ela tinha dificuldade em se comunicar com R. ou de fazer com que ela se sentisse incentivada a fazer coisas como participar dos grupos de apoio/se socializar, se hidratar ou comer. Então, para obter sucesso na assistência, visando a melhora da paciente, ela utilizou algumas medidas terapêuticas:
- Silêncio terapêutico;
- Apoio;
- Verbalização de aceitação e de interesse;
- Clarificação (quando o assunto não era compreensível);
- Repetia às últimas palavras ditas pela paciente (para retomar o assunto e quebrar o silêncio).
   Basicamente, essas medidas tem como base o incentivo positivo, sempre buscando estimular e encorajar o paciente durante o processo de tratamento.
   Já na fase maníaca, as dificuldades encontradas foram menores, pois de acordo com a autora, “(...)não tinha aquela tristeza contagiante,aquela falta de estímulos e as entrevistas fluíam bem, com vários assuntos.” Apesar disso, elas passaram uma semana sem se ver e, foi durante esse tempo, que houve a troca de fases. Isso desestimulou Luciana de início, que já tinha feito um plano de assistência voltada para a fase depressiva. Nessa fase, as medidas terapêuticas utilizadas foram:
- Clarificação;
- Ouvir reflexivamente (ao mesmo tempo em que ela escutava a paciente, também a questionada, com o objetivo de clarear o pensamento para ambas, além de ser uma forma de obter mais informações);
- Imposição de limites;
- Dizer ‘não’ (em situações mais complicadas, como querer fugir do hospital).
   A conclusão do trabalho é, na verdade, o que já tinha sido apresentado antes, relacionado as dificuldades que a enfermeira teve de enfrentar. Mas isso faz parte do tratamento e, quanto profissional, a assistente já sabe o que esperar. Por isso é importante ter essa preparação anterior (teórica e emocional), pois só assim ela pode encontrar meios para lidar com situação. Uma coisa que Martins abordou no texto, mas que também foi tratado em todos os outros lidos, é a questão de tratar o paciente como um ser particular e único, tendo o cuidado de entendê-lo diante das suas particularidades e do seu contexto. Nesse caso em específico, pode-se entender melhor esse ponto durante o processo do tratamento e os meios que a enfermeira usa para alcançar a melhora do paciente.             Por exemplo, é certo que existem remédios que são receitados para todas as pessoas que sofrem de PMD (forma generalizada). Mas só os remédios não são suficientes para o tratamento e precisa-se que a pessoa tenha um acompanhamento. É aqui que entra a importância da relação entre paciente e enfermeira. E o modo como a enfermeira trata cada um, vai diferir, pois apesar de existir certas condutas que são mais adequadas para esse tipo de tratamento, cada pessoa é única e possui características distintas umas das outras. Nisso, consigo ver muita semelhança com o texto sobre o CVV e a teoria de Rogers, que defende a ideia de um método de tratamento centrado na pessoa.
   Além do que já foi dito, uma outra questão que é pouco abordada, mas que eu acho importante destacar, é o fato do preconceito com quem sofre da doença. A autora comenta em uma parte sobre não ter tido a oportunidade de conhecer a família de R., mas que se tivesse sido diferente, queria falar com os parentes sobre acolhê-la e dar atenção à ela, além de não utilizar termos como “maluca” ou não expressar sentimentos de desprezo, indiferença ou demonstrar qualquer tipo de preconceito, pois isso tudo pode afetá-la de uma forma negativa. E, infelizmente, sabe-se que esse tipo de comportamento das pessoas de fato existe. Compreendo que às vezes seja difícil aceitar ou lidar com esse tipo de situação, mas ao mesmo tempo, a pessoa não está doente porque quer. Então, ela merece ser olhada com bons olhos. No caso desta doença em específico, o termo ‘bipolaridade’ acabou se popularizando e as pessoas o usam sem muitas vezes conhecer o real sentido da palavra. Às vezes por uma simples mudança no comportamento, as pessoas dizem: tal pessoa é bipolar...uma hora está de bem com todo mundo e depois já está com raiva. E mal sabem elas que essa questão vai além disso e precisa ser encarada com mais seriedade. 

   E, para descontrair, o vídeo da música "Hot N' Cold", da cantora Katy Perry:

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Prevenção do Suicídio - parte 2

   “Prevenção do Suicídio: Um relato da Capacitação dos Voluntários do Centro de Valorização da Vida (CVV) no Município de Porto Alegre”, foi dividido em duas partes. A segunda começa a partir do capítulo 2 da tese especialização de Patrícia Venturela. É nessa parte que encontra-se a parte mais importante do desenvolvimento do texto, pois é nela que a autora vai explicar mais a fundo como funciona O CVV.
   Como conceitua a autora, o Centro de Valorização da Vida “é uma sociedade civil sem fins lucrativos, de caráter filantrópico”, existente no Brasil desde 1962, em São Paulo. É um programa de prevenção do suicídio que funciona 24 horas por dia, incluindo domingos e feriados. A forma de contato pode ser por telefone ou pessoalmente (das 8h às 18h). Também existem outras formas de contato, como SMS, e-mail ou chat. O atendimento é gratuito e tem como público todas as pessoas que desejam conversar (claro que existem limites, pois existe um objetivo central). Seja sobre alguma dificuldade, alegria, crises... afinal, o programa busca a prevenção e isso significa que não deve-se esperar o indivíduo se suicidar para tomar alguma providência e sim, prevenir que isso aconteça. A inspiração dessa sociedade surgiu nos Samaritanos, que atuavam desde os anos 50, na Inglaterra. Lá, a iniciativa surgiu de um Reverendo de uma igreja Anglicana, que após realizar um velório de uma menina de 14 anos que se suicidou por não saber o que era a menarca, decidiu tomar alguma providência para que as pessoas que precisassem ser “ouvidas”, pudessem e tivessem como fazê-lo.
   Após dar essas informações acerca da história e do funcionamento, Venturela descreve como se dá o processo de capacitação dos voluntários do CVV. Assim como ela expôs de forma bem clara (e às vezes difícil de compreender, por serem situações delicadas nas quais os voluntários se encontram), o professor convidou uma pessoa que vive isso na prática para nos dar uma palestra sobre o programa. E isso acrescentou bastante a leitura, uma vez que através de alguns relatos dele, foi ficando mais fácil entender e enxergar o tamanho da importância do CVV para as pessoas que o procuram. Da mesma forma que está no texto, o palestrante (prefiro não citar nome) também enfatizou alguns pontos cruciais para que o atendimento seja efetivo e que são de responsabilidade do atendente fazê-lo. 
  •  A pessoa que está ajudando, precisa ser congruente, transparente; Ou seja, ela precisa acreditar no que o outro diz, de fato. Ela não pode ser superficial no atendimento. Quem procura ajuda precisa se convencer no que ela está dizendo é sincero. Assim, se ganha confiança. 
  • O voluntário não deve ter como objetivo fazer uma análise do caso (impondo seu ponto de vista, por exemplo) e sim, entender o ponto de vista da pessoa.
  • Entendendo o ponto de vista, fica mais fácil aceitar e compreender. Isso é necessário para que haja uma empatia entre os dois. 
   Há, ainda, coisas que o ajudante NÃO deve fazer, pois a forma de atendimento baseia-se na ACP (Abordagem Centrada na Pessoa), que busca criar condições de mudanças através de recursos que o indivíduo encontre por si só. São eles: 
  •  Comparar
  • Aconselhar
  • Julgar
  • Indagar
  • Interpretar
   Não sei se é claro, mas esses pontos já foram tratados na parte 1 do texto. Elas são as Condições Facilitadoras do Crescimento, que são meios pelos quais os voluntários vão buscar resgatar a Tendência Atualizante do indivíduo (que encontra-se quase inexistente nas pessoas que pensam em se suicidar). Essa relação de ajuda tem como base os princípios do olhar Humanista, de Carl Rogers. E é nessa segunda parte do texto que a teoria dele é aplicada. O CVV é um belo de exemplo de uma teoria que é praticada (muito bem, por sinal). O senhor palestrante nos disse algo sobre ela que eu achei muito interessante: a psicologia humanista nos ajuda a relacionar com as pessoas. De fato, isso é verdade. Não precisa ser psicólogo ou voluntário do CVV pra ter essa sacada. Ela é muito aplicável a nossa realidade... nos deparamos o tempo todo com problemas, situações complicadas, crises. Apesar de serem importantes no processo de construção do indivíduo, há certos momentos em que estamos mais vulneráveis. Ou, como diz Freud, nos encontramos em estados melancólicos. Também acho normal, pois ninguém é de ferro e consegue estar 100% o tempo todo; e, ao mesmo tempo, creio que até mesmo esse estado de melancolia possa servir de aprendizado ou como forma de superação dos problemas. Mas claro que existe um certo limite pra isso, pois se extrapola, deixa de ser algo que possa se tornar positivo na frente e torne-se o que os especialistas caracterizam como preocupante. Então, pequenas coisas como um ombro amigo ou não se recusar a escutar, já fazem grande diferença. É a tal da expressão que dizemos quando precisamos ser ouvidos: preciso desabafar. Não custa nada nos ajudarmos mais, nos dispormos a ouvir mais... São coisas que parecem insignificantes, mas que podem ter (do ponto de vista do outro) muita importância. Se ficarmos mais atentos, podemos impedir que as emoções destrutivas tomem conta do próximo.
   Para finalizar, uma citação do Rogers que resume exatamente do que essas pessoas necessitam e a forma como funciona o programa: “Acolher o outro com respeito, aceitação incondicional e compreensão, ajudando-o a resolver seus problemas com seus próprios recursos.” 



                    

  Contato para o posto de CVV em Brasília: 






segunda-feira, 14 de abril de 2014

Prevenção do Suicídio

   “Prevenção do Suicídio: Um relato da Capacitação dos Voluntários do Centro de Valorização da Vida (CVV) no Município de Porto Alegre”, diferentemente dos textos lidos até agora, é uma monografia do curso de Especialização Comunitária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que tem como autora Patrícia D’Avila Venturela. O professor decidiu dividi-lo em duas partes e hoje vou escrever sobre a primeira, apenas. Assim como os temas anteriores, esse também está direcionado a mente e as emoções destrutivas. Esses dois fatores já são, por si só, delicados. Se acrescentarmos o fato de que o suicídio é visto pela sociedade como um tabu, a fragilidade quanto a essa questão torna-se ainda maior.
   Venturela começa trazendo algumas abordagens acerca do suicídio:
1)     Olhar sociológico: Enfoque na teoria de Émile Durkheim. Durkheim, como sociológico, queria demonstrar a conexão existente entre o indivíduo e a sociedade, e estudar o suicídio foi um meio de comprová-la. A definição dele é a seguinte: “todo caso de morte que resulte direta ou indiretamente de um ato positivo ou negativo, praticado pela própria vítima e que ela sabia que produziria este resultado”. Sua teoria dizia que esse ato deveria ser entendido como consequência de algo que acontece na esfera social e não na individual. Além disso, ele classificou três tipos de suicídio:
·        Egoísta: onde o indivíduo não está muito inserido no grupo social e, como diz Patrícia Venturela, “pensam essencialmente neles”. Um exemplo? Quando o suicida justifica o ato por causa de um término de relacionamento.
·        Altruísta: Ocorre o oposto do anterior, pois o indivíduo está bastante inserido no contexto social. Normalmente, seus desejos deixam de ser individuais e passam a ser desejos coletivos, no sentido de que deve-se satisfazê-los em prol de algo (ideologia, crença). Um exemplo seriam os homens-bomba.
·        Anônimo: Está relacionando com o conceito de ‘anomia’, que tem a ver com fraca regulação social ou então um estado de transformação/mudança social. Esse cenário deixa o indivíduo mais fragilizado e propenso a cometer o suicídio, além de culpar essas razões externas à ele, para justificar o ato. A autora utiliza os suicídios que ocorreram no Brasil durante a ditadura militar como exemplo.
2)     Olhar Psicanalítico: Freud percebeu que existia uma relação entre as causas do suicídio e a melancolia, que pode estar relacionado com a dor da perda (seja de uma pessoa, de algo abstrato, de um objeto). A diferença encontra-se quando a pessoa se inclui nessa perda também e se priva do contato com as coisas que lhes são exteriores. Digo diferença porque a melancolia pode ser um estado ou uma fase. Por exemplo, por mais que a perda de alguém muito querido nos entristeça, depois de um tempo, retomamos a vida normal. E Freud verificou que isso não acontecia com esses sujeitos que não conseguiam superar a dor, pois é nesse estado que aparecem três sintomas que vão contribuir para o agravamento da situação: perda do objeto, ambivalência e a total regressão da libido ao ego. Assim, o indivíduo busca meios de cessar essa dor. Seja por meio de autoflagelação ou a própria morte.
3)     Olhar Humanista: Rogers defende a ideia de que todo o ser humano tem uma tendência a se desenvolver através de impulsos construtivos. A partir disso, ele cria a ACP (Abordagem Centrada na Pessoa), que diz: “estando o indivíduo livre de ameaças, escolhe direções construtivas para seu desenvolvimento e realizações de seus potenciais”, que no caso daqueles que pensam em se suicidar, esse ‘impulso construtivo’ é inexistente. A ACP é constituída de alguns fundamentos importantes e dentre eles está o conceito chamado de Tendência Atualizante. Ela é uma fase na qual o indivíduo que tem pensamentos suicidas encontra-se; ela caracteriza-se pelo fato de que a pessoa não enxerga em si potencialidades e nem a capacidade de viver. Ainda falando sobre a Tendência Atualizante, algumas características como a autorrealização e autodeterminação seriam fundamentais para o desenvolvimento e o processo construtivo da pessoa. Rogers diz que elas são responsáveis pela ‘conservação’ da existência. Seria através delas que o sujeito se define como pessoa e é capaz de obter as condições indispensáveis para conseguir se relacionar com o meio externo.
   Dessa forma, a autora dá um enfoque teoria de Rogers, que defende a ideia de que o meio externo à ele vai ser crucial para o seu desenvolvimento natural, uma vez que ele influencia bastante da Tendência Atualizante e que, a depender de como ocorreu ao longo da vida, pode ser um fator que vai provocar emoções destrutivas, que levam ao suicídio. Com isso, também é possível concluir que nenhum indivíduo é igual ao outro e é preciso levar em conta suas próprias características, seu próprio contexto de vida. E, sendo assim, cada um possui uma ‘percepção’ sobre os fatos; ou seja, o modo de reação e a maneira como cada pessoa recebe uma informação, uma experiência, vai ser diferenciado. Por isso, a ‘percepção de si’ e o ‘autoconceito’ que são estruturados durante o desenvolvimento como pessoa, são tão relevantes para o autor. No caso da pessoa que possui um pensamento suicida, ela encontra-se em um estado de incapacidade e quando se depara com algo que não se encaixa na percepção que ela tem de si, surgem sentimentos destrutivos (angústia, insegurança, medo...) que propiciam a ele uma situação de instabilidade e vulnerabilidade. Mas apesar disso tudo, para Rogers, existe uma solução para normalizar a Tendência Atualizante: Relação de Ajuda da ACP, que consiste de três fatores. São eles: Compreensão Empática, Consideração Positiva Incondicional e a Congruência. Basicamente, essa relação de ajuda funda-se na relação entre o individuo e o facilitador (voluntário que irá ajudá-lo), que vai tentar, por meio de vários meios, prevenir o suicídio. Mas é importante ressaltar que esses meios utilizados pelo voluntário, não tem o intuito de apontar o que é certo e errado, ou o que ele deve deixar de fazer ou o que tem que fazer; e sim fazê-lo refletir e por si só, encontrando assim, uma solução para a situação.
   Por fim, a primeira parte termina falando um pouco sobre o CVV, Centro de Valorização da Vida. Esse centro tem como objetivo a prevenção do suicídio e apesar de existir desde a década de 60, é muito pouco conhecido (lembrando o que a colega disse em sala, a divulgação deveria ser maior, pois a população sabe muito pouco ou nem sabe sobre a sua existência). Ele funciona em todo o mundo e o atendimento é feito por voluntários. Mas não vou me alongar sobre o tema, uma vez que na segunda parte o foco é totalmente voltado a ele.
   Além desse resumo, acho importante destacar algumas informações que a autora trouxe no início do texto, como o crescimento da taxa de suicídios no mundo. Segundo a Organização Mundial de Saúde, eles crescem a cada ano. Aqui no Brasil, o Rio Grande do Sul é o estado que possui o número mais elevado. Apesar de acharmos que o suicídio deve ser prevenido pelos profissionais da saúde, essa é, na verdade, uma responsabilidade social (até porque, segundo Venturela, grande parte das pessoas que cometeram suicídio, nunca foram até um profissional de saúde mental). O diagnóstico é complicado, no sentido de que não existe uma causa ou um formato em que todos os indivíduos que pensam em cometer tal ato, possam se enquadrar. É diferente de um diagnóstico de uma doença como câncer, por exemplo. É por isso que os especialistas pedem que nos atentemos aos mínimos detalhes... pois o que pode parecer solucionável para mim, pode não ser para o outro. Aqui vejo uma semelhança com a Antropologia novamente: a importância de se colocar no lugar do outro. E é mais fácil compreender a proposta de Rogers também, pois ele vê o individuo como único, sendo fundamental compreendê-lo em seus próprios termos. Talvez seja isso o que falte. Esclarecer isso para a população, porque as pessoas ainda olham com maus olhos essa questão do suicídio. Assim como várias outras questões, falta entender melhor do que se trata. E se não entende, como se trata? É dever do Estado dar ao cidadão qualidade de vida, e a prevenção do suicídio encaixa-se nesse ponto. Além de ser de sua competência também, promover e divulgar as formas de amparo existentes. 
 - Para quem quiser saber mais sobre o CVV, segue o link do site: http://www.cvv.org.br/
 - Para descontrair (e refletir), uma música da banda britânica Coldplay: Lost. (Letra original e tradução: http://www.vagalume.com.br/coldplay/lost-traducao.html


“Existem nas recordações de todo homem coisas que ele só revela aos amigos. Há outras que não revela mesmo aos amigos, mas apenas a si próprio, e assim mesmo em segredo. Mas também há, finalmente, coisas que o homem tem medo de desvendar até a si próprio...”
- Dostoiévski